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Miss Natural e outras pinturas

ANA PRATA
10 . out . 2017  -  12 . nov . 2017 , Anexo Millan
abertura 10 . out . 2017, 19h - 22h
(ter – sex, 10h – 19h; sáb, 11h – 17h):
  • Anaprata_18a2228
    Ana Prata
    Escultura, 2017
    Óleo sobre tela
    150 x 120 cm

A Galeria Millan apresenta, de 10 de outubro a 12 de novembro de 2017, Miss Natural e outras pinturas, a segunda exposição individual de Ana Prata na galeria. A mostra ocupa o Anexo Millan e reúne em torno de vinte pinturas em óleo sobre tela que variam entre pequenos e grandes formatos. A artista opera com narrativas não lineares, onde aspectos temáticos e formais se entrelaçam. Cada pintura é para ela uma forma específica e singular de organizar e apresentar uma ideia, e quando postas em conjunto estabelecem novo sentido. Em seu trabalho, há uma ambiguidade latente que pode transitar entre o humor, a interioridade e o espírito crítico.

Nesta exposição algumas famílias de trabalhos são apresentadas, entre elas: figuras humanas, formas geométricas, paisagens e pinturas abstratas gestuais. Um triângulo pode tanto apresentar referências simbólicas — como uma espécie de portal, ou uma ideia de ascensão — como pode remeter, pela maneira como foi pintado, a um vocabulário pictórico do séc. XX. Temas como este, quando colocados ao lado das pinturas de figuras femininas, fazem emergir outros sentidos formando uma teia que não procura encontrar uma resposta, mas sim abrir caminhos de percepção.

No âmbito do feminino, a artista formula uma personagem intitulada Miss Natural, que aparece em alguns trabalhos e pode nos remeter ao conceito da “mãe universal”, figura mítica presente em diversas culturas e religiões pagãs, ou mesmo flertar com o ideal hippie de “retorno às origens” e seus remanescentes na cultura vigente. O trabalho da artista mantém um caráter ambíguo, fato que se torna evidente quando nos damos conta de que a mão de uma dessas figuras femininas pode também nos lembrar as luvas do personagem Mickey Mouse.

As paisagens de montanhas e lagos se estruturam em torno de um mesmo esquema de desenho (que possui a despretensão de um desenho infantil), mas com técnica e visualidade singular, criando temperamentos variados, formalmente díspares. Ao olhar o trabalho de Ana Prata, é perceptível a relação direta que a artista estabelece com diversos momentos de história da arte moderna, como se este diálogo fosse uma ferramenta para o seu fazer. Porém, Prata não cria resistência à diversidade que este diálogo possibilita, e sim o utiliza para o exercício da liberdade.

Respirar sem oxigênio

ORGANIZAÇÃO DE REGINA PARRA
10 . out . 2017  -  04 . nov . 2017 , Galeria Millan
abertura 10 . out . 2017, 19h - 22h
seg – sex, 10h – 19h; sáb, 11h – 17h
  • Regina_jose_galindo_baixa
    Regina José Galindo
    Tierra, 2013
    Vídeo digital colorido com som
    33 min, 30 seg

A Galeria Millan apresenta, de 10 de outubro a 4 de novembro de 2017, a exposição coletiva Respirar sem oxigênio, organizada pela artista Regina Parra. A mostra reúne trabalhos de 24 artistas, incluindo nomes da nova geração — Bruno Levorin, Claudio Bueno, Gui Mohallem, Haroldo Saboia, Heloisa Franco, Julia Gallo & Max Huszar, Julia Ayerbe, Laura Davina, Malka Borenstein, Patrícia Araujo, Thany Sanches — em diálogo com obras importantes de Ana Mazzei, Afonso Tostes, Artur Barrio, Caetano Dias, Fancy, Lenora de Barros, Leticia Parente, Jannis Kounellis, Regina José Galindo, Nelson Felix, Tatiana Blass e Tunga. A proposta é investigar a vulnerabilidade do corpo como um meio para criação de novas potências a partir de um rico diálogo entre diferentes gerações de artistas brasileiros e estrangeiros.

A seleção de obras atravessa os anos 1970 até 2017 e inclui vídeos, esculturas, objetos, pinturas e desenhos que percorrem as distintas deformações sofridas pelo corpo contemporâneo. Deformações que não são torturas mas resultado das “posturas de um corpo que se reagrupa pela vontade de dormir, de vomitar, de se revirar, de ficar sentado a maior parte do tempo.” (Lapoujade, David. O corpo que não aguenta mais); vindas portanto da exaustão, do esgotamento, de um corpo que já não aguenta mais. “É condição própria do corpo ser afetado pelas forças do mundo. Deleuze insiste que um corpo nunca deixa de ser submetido a encontros e confrontos: com a luz, com o oxigênio, com os alimentos, com os sons etc. Um corpo é, segundo ele, sempre ‘encontro com outros corpos’”, conta Parra.

Se essa situação de extrema fragilidade pode ser vista como um sinal de resistência, o esgotamento não seria necessariamente uma paralisia total. Como, então, transformar a grande fadiga em potência? Como respirar sem oxigênio? Essa é a ideia central que será colocada pela curadora: o corpo em colapso como meio para investigação e criação de novas potências frente às contingências políticas, culturais e afetivas da vida contemporânea.

Para complementar a proposta, Regina Parra convidou o coreógrafo Bruno Levorin para desenvolver uma ação como reposta à questão “Quais são os espaços e limites que circunscrevem a comunicação entre dois corpos?”. Levorin vai partir do encontro com o artista visual Haroldo Saboia para investigar práticas coreográficas que discutam a relação entre gesto, nomeação e invocação.

DAS MÃOS E DO BARRO: JULIA ISÍDREZ, EDILTRUDIS NOGUERA E CAROLINA NOGUERA

CURADORIA/CURATED BY: ARACY AMARAL
02 . set . 2017  -  30 . set . 2017 , Galeria Millan e Anexo Millan
abertura 02 . set . 2017, 12h - 16h
seg – sex, 10h – 19h; sáb, 11h – 17h
  • Julia01
    Julia Isídrez
    Vasija roja - Pieza con ondulaciones, rostro, patas y cola zoomorfas, 2017
    Cerâmica
    72 x 62 x 62 cm
  • Julia02
    Julia Isídrez
    Figura roja zoomorfa con pico y cuerpo con ondulaciones, 2017
    Cerâmica
    36 x 28 x 28 cm
  • Ediltrudir02
    Ediltrudis Noguera
    Figura pequeña mujer, 2017
    Cerâmica
    63 x 36 x 22 cm
  • Ediltrudir01
    Ediltrudis Noguera
    Figura zoomorfa (equino), 2017
    Cerâmica
    88 x 43 x 67 cm
  • Carolina02
    Carolina Noguera
    Vaso esférico com seis anjos, 2017
    Cerâmica
    32 x 29 cm
  • Carolina01
    Carolina Noguera
    Figura materna, 2017
    Cerâmica
    38 x 31 cm

A Galeria Millan recebe, de 02 a 30 de setembro de 2017, a exposição inédita Das mãos e do barro, com curadoria de Aracy Amaral, co-curadoria do artista Osvaldo Salerno, um dos diretores do Museo del Barro, de Assunção, e participação do teórico Ticio Escobar. A mostra, que ocupa os espaços da Galeria e Anexo Millan, apresenta pela primeira vez em São Paulo a visceralidade presente na tradição centenária da cerâmica paraguaia a partir de um conjunto de 114 obras, realizadas em 2017, das artistas daquele país: Julia Isídrez, Ediltrudis Noguera e Carolina Noguera.

A mostra foi concebida por Aracy Amaral em 2009, por ocasião de sua curadoria na Trienal do Chile, quando a curadora teve um contato mais profundo com as obras dessas três artistas guaranis autodidatas que honram uma tradição centenária, cujas raízes remontam ao período pré-colombiano, em seu país de origem. “Artesãs que laboram diuturnamente, tendo aprendido com suas mães, que por sua vez aprenderam com suas mães, numa cadeia que vem quase desde o período colonial até nossos dias. A mulher amassa o barro úmido, o homem trabalha na cestaria ou na marcenaria”, conta Amaral.

Itá e Tobatí, cidades natais de Julia Isídrez e das irmãs Ediltrudis Noguera e Carolina Noguera respectivamente, são dois reconhecidos centros de produção de cerâmica Guarani, povo que cultiva a tradição das artes do barro, caracterizada pela produção de urnas funerárias e vasos votivos. As peças das paraguaias carregam rastros do dia partilhado entre os afazeres domésticos, os cuidados com os filhos e a casa, onde o trabalho em barro acontece ao lado do fogão e do cômodo em que suas famílias dormem. “Os movimentos do lar mudam e aparece outra dinâmica que interrompe o hábito”, define a escritora Lia Colombino.

As três artistas trabalham com o barro com inaudita personalidade e já se apresentaram em importantes exposições na América Latina e na Europa, incluindo a Documenta 13, de Kassel. Carolina Noguera (Compañia 21 Julio, Tobatí, 1972)  filha da prestigiosa ceramista Mercedes Areco de Noguera, desde criança começou a trabalhar com a mãe, seguindo a tradição hereditária pré-colonial. Aos 17 anos, Carolina tomou um caminho independente, momento em que começa a desenvolver um estilo próprio, marcado por figuras humanas e angelicais, que até hoje caracteriza sua obra. Começou a adquirir notoriedade a partir do documentário Kambuchi, realizado por Miguel Agüero e que estreou em 2011.

Ediltrudis Noguera (Compañia 21 Julio, Tobatí, 1965), assim como sua irmã Carolina, também dedica-se à arte do barro mas sua prática volta-se para os cântaros (vasos para beber de origem greco-romana) de formas zoomorfas ou antropomorfas, apresentando poderosas imagens de touros, de cavalos e de humanos. Recentemente, seu forno doméstico foi substituído por outro maior para cocção de peças maiores. Tem exposto amplamente no Paraguai e no exterior, a exemplo da Trienal de Santiago, Chile. Em fevereiro de 2017, participou de um seminário de artesanato na Cidade de Antígua, na Guatemala, a convite do Setor de Fomento de BANAMEX, Banco Nacional do México, evento que reuniu grandes mestres da Arte Popular Ibero Americana.

Julia Isídrez (Compañia Caaguazu, Cidade de Itá, 1967), filha da artista Juana Maria Rodas (1925-2013) com quem também aprendeu, assim como as irmãs Noguera, o ofício de ceramista. Seu trabalho concentra-se tanto em peças pequenas, ora inspiradas em animais do ambiente doméstico e seu entorno (cobras, tatus, galinhas, patos, pulgas, aranhas, percevejos, escorpiões, etc.); como também escalas maiores que exploram formatos de vasos e urnas. Expõe internacionalmente desde 1976, incluindo a Galeria da UNESCO, Paris, o Centro de Artes Visuais, Museo del Barro, Assunção (1998,1999), Bienal do Mercosul, Porto Alegre (1999), Feira ARCO, Madrid (2007), 35ª Versão da Mostra Internacional de Artesanato Tradicional, Santiago, Chile (2008), Trienal de Santiago, Chile (2009) e a Documenta de Kassel (2013).

Ao reunir pela primeira vez no Brasil um rico conjunto das obras dessas três artistas, Das mãos e do barro traz uma importante reflexão acerca do fenômeno da arte popular paraguaia bem como sua força expressiva que, ao lado das tradições fabril e musical, estão adquirindo novos contornos diante de uma realidade de comunicação global que amplifica sua produção criativa. Trata-se de obras que traduzem “a transformação do utilitário frente ao fenômeno da contaminação globalizante em uma arte que se faz presente hoje, não apenas em exposições locais e no Museu do Barro, como em eventos internacionais e mostras em outros países”, conta Amaral. Por outro lado, também aponta para o dilema de qualquer tradição centenária entre manter-se ou renovar-se que, ao tentar atender a emergência de um mercado sempre ávido pelo novo, corre o risco de desaparecer.

TIAGO MESTRE

NOITE. INEXTINGUÍVEL, INEXPRIMÍVEL NOITE.
12 . jul . 2017  -  12 . ago . 2017 , Galeria Millan
abertura 12 . jul . 2017, 19h - 22h
seg – sex, 10h – 19h; sáb, 11h – 18h
  • Tm_9210_30x17x16_2017
    Crash
    2017
    cerâmica
    30 x 17 x 16 cm
  • Tm_9217_18x17x17_2017
    Canaletto
    2017
    guache sobre argila crua
    15 x 12 x 8 cm
  • Tm_9213_70x30x25_2017
    Árvore
    2017
    argila crua
    70 x 30 x 25 cm

Artista português que vem ganhando destaque na cena artística brasileira, Tiago Mestre expõe, entre 12 de julho e 12 de agosto, pela primeira vez na Galeria Millan. A mostra “Noite. Inextinguível, inexprimível noite.” empresta seu título do poema “Lugar II” do poeta português Herberto Helder (1930-2015) e reúne um conjunto de 60 obras que exploram a questão da forma e do mito do projeto moderno no âmbito da escultura. Materiais como argila, bronze e gesso dão corpo à obras que se posicionam numa constante negociação entre projeto e imprevisibilidade, entre programa e liberdade expressiva.

O conjunto de obras inclui esculturas de diferentes escalas, vídeo, intervenções na arquitetura da galeria e uma grande instalação (elemento paisagístico que organiza toda a exposição). Estes trabalhos remetem aos primeiros intentos humanos de assimilar o natural dentro de um pensamento projetual, mapeando o processo de assimilação da paisagem a partir do intelecto. “A ideia de projeto como pano de fundo, como orquestração de um sistema”, explica Mestre.

Cada uma das esculturas parece evidenciar um fazer sumário, claramente manual, como se estivesse inacabada ou em estado de puro devir, deixando, muitas das vezes, uma filiação ambígua quanto à sua natureza disciplinar. O uso da cor surge pontualmente, não tanto como sistema, mas antes como recurso que acentua, corrige ou esclarece questões pontuais do trabalho. Essa indefinição semântica, ou transversalidade programática é um dos eixos do trabalho. A problematização da capacidade performática de cada uma das obras é tornada evidente (senão parodiada) em situações como a da escultura de dois morros (obra que a dois tempos é escultura paisagística e nicho para outras obras menores).

O vídeo, que se apresentará no andar superior da galeria, coloca-se como uma espécie de síntese geral da mosta. A imaterialidade deste suporte contrasta de maneira decisiva  com o lado predominantemente objetual dos restantes trabalhos. Nele assistimos a uma transmutação lenta, silenciosa e interminável de formas geométricas e orgânicas, numa referência “apática” ao mito da arquitetura brasileira, à sua relação singular com a natureza e a paisagem.

Embora alguns dos procedimentos da arquitetura estejam envolvidos em seu processo — a exemplo dos croquis e as maquetes de estudo — o olhar de Mestre volta-se mais para a percepção da experiência dos corpos no espaço, sejam eles naturais, escultóricos, ou arquitetônicos. Parece ser essa intimidade entre natureza, espaço e forma, que a presente mostra de Mestre propõe desvelar.

RODRIGO ANDRADE

DUAS CAVERNAS
01 . jun . 2017  -  01 . jul . 2017 , Galeria Millan e Anexo Millan
abertura 31 . mai . 2017, 19h - 22h
seg - sex, 10h - 19h; sáb, 11h - 18h
  • _18a1256_cut
    Detalhe de Bellini
    2016
    Óleo sobre tela sobre mdf
    60 x 75 cm

Um dos mais importantes pintores da geração 80, Rodrigo Andrade expõe, de 1 de junho a 1 de julho de 2017, sua produção mais recente na Galeria Millan e Anexo Millan. Duas Cavernas contempla as principais vertentes trabalhadas intensamente pelo artista nos últimos meses. Conhecido por sua capacidade de mudar radicalmente o rumo de sua produção, em busca de novos caminhos de pesquisa, Andrade vive um momento de maior síntese, em que os vários percursos trilhados em 33 anos de carreira parecem confluir para uma maior interação. E cria, com essa exposição, uma interessante interface de diálogo com a grande mostra retrospectiva de sua obra, que ocorre no final do ano na Estação Pinacoteca.

Ao todo a mostra reunirá entre 25 e 30 telas, que se organizam em torno de três eixos principais: as paisagens, inspiradas em sua grande maioria por obras clássicas assinadas por mestres como Ruysdael, Uccello e Bellini (que ocuparão o espaço da galeria); as pinturas abstratas, chamadas de Bilaterais, formadas por dois grandes campos cromáticos em equilíbrio (exibidas no anexo); e, como fiel da balança – por trazer questões familiares aos dois grupos anteriores – uma série de trabalhos recentes, apelidados de “figuras binárias".

Essas figuras binárias transitam entre o abstrato e o figurativo e lidam sempre com a ideia do duplo, do reflexo, aspecto bastante presente em toda a produção do artista. Algumas delas remetem ao universo dos cartoons ou a referências da história da arte (é o caso das telas Fera e Princesa, em diálogo evidente com São Jorge e o Dragão, de Uccello, e Bicho e Pedra, depois de Neves Torres, feita a partir de um trabalho do autor citado no título). Outras mais indecifráveis, como a gigantesca pintura mural, de 6 x 11 metros, que Andrade fará numa das paredes do anexo.

As grutas, catacumbas e rochedos, temas pitorescos do século XIX, encantam o artista há tempos e ele vem colecionando imagens do gênero desde 2010 e reelaborando pictoricamente esse motivo, até chegar no estágio atual.  Tanto as cavernas como seus outros trabalhos são corpos volumétricos que se projetam para além do plano e conquistam o espaço. Para lidar com as massas de tinta – num tipo de trabalho que remete às pinturas com formas geométricas feitas por ele nos anos 2000, e que acabaram se tornando uma espécie de assinatura artística – Andrade lança mão de máscaras, moldes cuidadosamente desenhados no processo de recortar.

Desde os primeiros anos, quando seu trabalho e o de outros companheiros – reunidos no ateliê Casa 7 – ganhou projeção ao participar da 18a Bienal de São Paulo, várias foram as mudanças radicais em sua produção. A última delas ocorreu em 2010, quando Andrade – que vinha fazendo um trabalho fortemente abstrato – surpreendeu o circuito com as paisagens negras, imateriais, feitas a partir de registros fotográficos, que mostrou na 29a Bienal (2010). Agora, além de uma enorme vitalidade e de um retorno em busca a uma maior presença da cor e da forma, o artista parece mais disposto a trilhar caminhos paralelos, descobrindo em cada um deles elementos para nutrir sua pesquisa.

 

NELSON FELIX

VARIAÇÕES PARA CÍTERA E SANTA ROSA
20 . abr . 2017  -  20 . mai . 2017 , Galeria Millan e Anexo Millan
abertura 19 . abr . 2017, 19h - 22h
seg - sex, 10h - 19h; sáb, 11h - 18h
  • _18a5915
    Cubo
    Ônix e ferro
    75 x 45 x 41 cm cada
    2017
  • _18a6002
    Escultura de caule I
    Mármore e bronze
    220 x 210 x 45 cm (caule 220)
    2017
  • _18a6231
    Desenho Lacre diptico
    Lacre, bronze e aço
    240 x 337 x 30 cm
    2017
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A Galeria Millan apresenta, entre 19/4 e 20/5, exposição inédita de Nelson Felix “Variações para Cítera e Santa Rosa”. A mostra, que ocupa os espaços da Galeria e do Anexo Millan, reúne esculturas e desenhos que refletem as ações do quarto trabalho da série Método poético para descontrole de localidade, iniciada em 1984.

“O Método poético, como expressa o título, visa traduzir uma ideia de espaço, de construção poética, que amalgama locais por meio do desenho e ações semelhantes”, explica o artista. Como uma ópera e seus atos, as três obras anteriores - 4 Cantos, Verso e Um Canto Para Aonde Não Há Canto –, foram realizadas em Portugal (2007/08), em Brasília (2009/11) e São Paulo (2011/13). E agora o quarto trabalho na Galeria Millan e no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro, simultaneamente.

“Como nos livros de poesia moderna, em que desenhos ou gravuras criavam uma relação entre texto e imagem, o Método possui um processo similar. Nesse sentido, esculturas, desenhos, ações, fotografias, vídeos e deslocamentos ilustram um texto, formando uma noção de lugar, que submete-se a um desenho no próprio globo terrestre”, revela Nelson Felix.

Em Variações para Citéra e Santa Rosa, como no projeto no MAM carioca, Nelson Felix elege o poema de Mallarmé Um Lance de Dados Jamais abolirá o Acaso para desestruturar a ideia de um só espaço expositivo. Partindo desse princípio, ele lança um dado, com o número seis em todas as faces, sobre um mapa-múndi, em uma data e hora estabelecidas e em um local incidental do curso de uma estrada. O dado, jogado, define seu acaso, não mais pela aleatoriedade do número, mas sim pela aleatoriedade de sua posição indicada sobre o mapa. Com isso, o artista viaja a Cítera, ilha jônica grega e a Santa Rosa, no pampa argentino.  

Serão expostos na Galeria e no Anexo Millan dezoito desenhos (em lacre, mármore, planta, cabo de aço, bronze e tecido) e sete esculturas (em mármore de carrara, bronze, planta e tv), que remetem ao poeta francês e aos espaços percorridos pelo artista. “Existe hoje um entrecruzamento de fatores físicos e não-físicos acoplados ao entorno da arte, fatores como: informações, significados, história, hierarquia, tempo etc.; o nosso espaço atual, pelo menos em arte, não é mais tão limpo. Neste quarto trabalho, como nos anteriores, também reúnem-se ambientes externos e internos, mas seu interesse encontra-se nos múltiplos significados criados no próprio sítio da exposição”, conclui o artista.

"RETRATOS"

EXPOSIÇÃO COLETIVA: CURADORIA RAFAEL VOGT MAIA ROSA
13 . mar . 2017  -  08 . abr . 2017 , Galeria Millan
abertura 11 . mar . 2017, 12h - 16h
seg - sex, 10h - 19h; sáb, 11h - 18h
  • Tu_8732_91x71_5_2014
    Tunga
    Pitágoras (From La Voie Humide), 2014
    Fotografia
    91 x 71,5 cm
  • Img_1924
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A Galeria Millan apresenta, entre 11/3 e 8/4, a exposição “Retratos”, com curadoria do crítico de arte e pesquisador Rafael Vogt Maia Rosa. A coletiva reúne 30 obras de artistas brasileiros que, a partir da década de 1960, tomaram o retrato como campo de investigação estética.  

“Esse gênero permitiu aproximações de processos e realidades culturais diversas, tais como a fotografia e a pintura, o universo da arte conceitual e a moda”, afirma o curador. “Foram muitos os artistas nacionais que incursionaram pelo retrato; a seleção realizada valoriza o diálogo entre as obras, incluindo desde trabalhos inéditos de artistas representados pela Galeria Millan até itens raros de acervos particulares, que dificilmente são expostos ao público.”

A lista de participantes traz Wesley Duke Lee, Tunga, Mario Cravo Neto, Waldemar Cordeiro, Geraldo de Barros, Carlos Fajardo, Claudio Tozzi, Regina Parra, Lenora de Barros, Maya Luxemburg, Vik Muniz, Sergio Romagnolo, Boi, Rodrigo Andrade, Ana Prata, Gilda Vogt, Otavio Schipper, Tatiana Blass, José Resende, Fernando Zarif, Bob Wolfenson e Janaina Tschäpe.

“A curadoria procurou evidenciar as experimentações realizadas no país através do gênero do retrato, abrindo campo para a experiência dos visitantes, sem impor nenhum tipo de cronologia ou leitura. Celebramos nesta mostra as múltiplas expressões da arte contemporânea brasileira, tendo em perspectiva a formação de público e a percepção do ‘primitivo tecnisado’ em nossa cultura”, conclui Rafael Vogt. 

ARTUR BARRIO E CRISTINA MOTTA

"AGUATÁ - ...... C .....A ...O .... S"
09 . mar . 2017  -  08 . abr . 2017 , Anexo Millan
abertura 08 . mar . 2017, 19h - 22h
seg - sex, 10h - 19h; sáb, 11h - 18h
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    Cristina Motta
    "Vestígios de Uma Obra", 2016

Pela primeira vez ocupando o Anexo Millan, Artur Barrio Cristina Motta apresentam a mostra "AGUATÁ - ......C .....A ...O ....S", que reúne 40 imagens divididas em três séries: “Vestígios de uma Obra”, “Águas Envenenadas” e “Enfante”. Ao lado das fotografias de Cristina Motta, Artur Barrio apropria-se do espaço expositivo como que transformando-o em ateliê onde cria, poucos dias antes da abertura, uma situação ou experiência inédita.

A produção de Artur Barrio desafia o vocabulário artístico tradicional, de forma que a palavra “exposição” (e seu significado historicamente sedimentado) mal parece se adequar ao que o artista propõe com as ações que realiza em galerias e espaços institucionais pelo mundo. Mais que estender, reduzir ou distorcer a significação corrente de conceitos como espaço expositivo, obra de arte e exposição, Barrio opera a partir de outra lógica, questionando aquilo que está na essência de tais ideias e frustrando deliberadamente as expectativas que nos guiam, enquanto público de arte, ao entrarmos em contato com elas.

Ao reconhecer o modus operandi não só do sistema de arte mas de sistemas em geral, e ao não se identificar com eles, Barrio não se resigna a criar um trabalho que, ao se opor a tais ordenamentos, continue reconhecendo (negativamente) as mesmas questões essenciais; mais que isso, sua poética radical mostra que a desordenação, a quebra de fronteiras, o efêmero e a reversibilidade das situações são “exercícios de liberdade” de forte poder emancipatório.

Enquanto ocupa o longo salão principal do Anexo Millan (inaugurado em 2015 e localizado a 50 metros da Galeria Millan), a fotógrafa Cristina Motta apresenta, no salão de entrada do espaço, cerca de 40 fotografias inéditas produzidas em 2016, divididas em três séries (“Vestígios de uma Obra”, “Águas Envenenadas” e “Enfante”).

Apaixonada pela pintura, a artista busca a essência dessa técnica através da fotografia. Essa devoção é percebida quando atentamos para seus trabalhos fotográficos a princípio quase abstratos, mas que quando vistos com mais atenção mostram-se dotados de grande força poética, originada em suas experimentações com a natureza, luzes, sombras e movimento. Sua obra opera entre a ilusão e o detalhe, na escolha de certos tons de cor, como o azul, que predominam em imagens aparentemente obscuras mas que revelam situações de mundo frágeis e de grande beleza.

BOB WOLFENSON

NÓSOUTROS
01 . fev . 2017  -  24 . fev . 2017 , Anexo Millan
abertura 31 . Jan . 2017, 19h - 22h
seg - sex, 10h - 19h; sáb, 11h - 18h
  • New_york__spring_2013_-70_x_183cm-_harlem
    Nova York, Primavera 2013
    70 x 193 cm
  • Miami__summer_2013_-70_x_229_5cm-
    Miami, Verão 2013
    30 x 95 cm
  • Paris__spring_2014_-70_x_226_5cm-
    Paris, Primavera 2014
    70 x 219,5 cm
  • Marrakech__out_2014_-75_x_230cm-
    Marrakesh, Outubro 2014
    75 x 230 cm
  • Londres_cf020828_4_-70_x_191_5cm-
    Londres, Outono 2012
    30 x 83 cm
  • New_york__spring_2013_-75x_226cm-
    Nova York, Primavera 2013
    75 x 224 cm

NÓSOUTROS

A ideia desta série me ocorreu em 2012, num passeio pela praia de Coney Island, nos arredores de Nova York. Ao iniciar o caminho de volta a Manhattan, observei com interesse uma massa de desconhecidos entre si que aguardavam para atravessar a rua depois de um dia de lazer intenso sob o sol escaldante do verão nova-iorquino. A postura compartilhada de meros pedestres esperando o sinal abrir os tornava semelhantes, ao mesmo tempo que figurinos e tatuagens, anatomia, cor da pele e atitude (euforia ou introspecção) os distinguia. Fotografei-os com minha Leica de pequeno formato e guardei essas imagens como uma simples curiosidade de viajante. Mais tarde, ao revê-las em meu computador, surgiu a vontade de fotografar e organizar cenas como aquela mundo afora, ressaltando um dos mais marcantes paradoxos do ser humano, tão evidente naquele primeiro instante registrado: o de ser igual e diferente, o desejo de pertencer a um grupo e ao mesmo tempo querer se distinguir dele.

A ambição de criar painéis representativos de identidades humanas diversas porém genéricas me levou a vários países e populações. Um ano depois voltei a Coney Island, devidamente equipado com uma câmera de médio formato cuja performance na captura das imagens em alta definição é sua característica principal – suponho e quero que este aspecto permita ao espectador passear os olhos pelas ampliações e ver até o que o fotógrafo não enxerga quando dispara o obturador. Escolhi também fotografar grupos mais singulares, como os judeus ortodoxos de Crown Heights, os afro-americanos do Harlem, ambos em Nova York, bem como executivos engravatados chegando ao trabalho num típico dia de frio do inverno inglês, na City londrina. No mais, a maioria das cenas mostradas aqui foi feita a partir da procura fortuita de lugares onde o afluxo de transeuntes parecesse adequado ao meu intuito. No entanto, ao postar a câmera em um cruzamento e apontá-la para os que vão atravessar a rua, encontrei naturais desconfianças, mas encontrei também: as velozes transformações dos hábitos urbanos, os múltiplos signos da moda e a pluralidade étnica cada vez mais comum na vida contemporânea. Tudo isso emoldurado por recortes nas grandes metrópoles e pela condição climática vigente de cada época e local, a qual determinava a roupa e os humores dos passantes.

O processo de realização das fotografias seguiu princípios rígidos: as tomadas foram sempre feitas em cruzamentos ou faixas de segurança, e as pessoas estavam de fato naqueles lugares, mesmo que não tenham sido fotografadas no mesmo momento em que as que aparecem a seu lado na cópia final. Fiz algumas montagens para ressaltar os pressupostos que me levaram a realizar esta ideia. Por mais racional que seja uma empreitada como esta, o imponderável estará sempre presente enquanto houver o instante fotográfico. Nos anos em que me dediquei a este trabalho, pude perceber claramente que quando se está com uma máquina fotográfica no meio da rua, mesmo que com um tripé e com conceitos específicos em mente, não se pode controlar muita coisa. A rua é viva e nos impõe essa vivacidade.

Bob Wolfenson

GUILHERME GINANE

QUE DIA FELIZ HOJE AINDA VAI SER
27 . Jan . 2017  -  24 . fev . 2017 , Galeria Millan
abertura 26 . Jan . 2017, 19h - 22h
seg - sex, 10h - 19h; sáb, 11h - 18h
  • _18a5340r
    Vermelhão, 2016 (detalhe)
    Óleo sobre tela
    160 x 134 cm
  • Gg_8637_160x134_2016
    Vermelhão, 2016
    Óleo sobre tela
    160 x 134 cm
  • Gg_8675_120x100_2016
    Azul, 2016
    Óleo sobre tela
    120 x 100 cm
  • Gg_8663_75x56_2016
    Impurezas do Branco, 2016
    Óleo sobre papel
    75 x 56 cm
  • Gg_8662_75x56_2016
    Simpatia pelo Demônio, 2016
    Óleo sobre papel
    75 x 56 cm

Nós diante dela

A primeira pintura de Guilherme Ginane que eu vi representava uma espreguiçadeira sobre (ou dentro de) um fundo cinza. Faz sentido ressaltar a ambivalência entre as duas posições – sobre e dentro –, porque o fundo se confundia com o chão, como nos chamados fundos infinitos dos estúdios fotográficos de publicidade. O único ponto de apoio e referência da perspectiva era a sombra embaixo da espreguiçadeira. E se por um lado essa sombra impedia que a imagem representada se reduzisse à bidimensionalidade da tela, por outro o fundo desnorteava a perspectiva incipiente num trompe-l'oeil claustrofóbico e perturbador, onde o infinito era também parede e chão, ao mesmo tempo transparência e opacidade, cheio e vazio. Não havia nada além da espreguiçadeira e sua sombra, perdidas no espaço. E eu não conseguia tirar os olhos da tela, como se tentasse focar um buraco negro.

Não foi só a espreguiçadeira que me fez pensar, por associação temática, no "Quarto de Dormir em Arles", que Van Gogh pintou para se vingar do repouso – ou, antes, da doença que o deixara de cama naquele quarto. Ginane abandonou a publicidade pela pintura. Se a propaganda foi sua doença, é provável que a pintura seja sua vingança.

O crítico italiano Lionello Venturi escreveu, sobre o "Quarto de Dormir em Arles",  que "Van Gogh (...) queria representar o sono, mas não podia. A aproximação da tragédia desse espírito que dava sinais de desequilíbrio opunha-se ao repouso e ao sono. A calma reina no quarto abandonado, mas trata-se de uma calma sem esperança, nem piedade. (...) É um 'repouso' nascido do desespero."

A perspectiva do quarto de dormir de Van Gogh é múltipla, como se, na falta da figura humana, cada objeto tivesse ganhado direito a um ponto de vista individual e independente; como se coabitassem no mesmo quadro universos ou dimensões paralelas, compondo uma totalidade movediça, ligeiramente deformada pela contradição e pela incompatibilidade entre autonomias fragmentárias.

Os objetos sobre os tampos das mesas de Guilherme Ginane também têm uma existência autônoma e estranhamente inconciliável. Os cigarros, os fósforos, os vasos de flores, os livros etc. se sobrepõem à mesa, que oscila entre fundo e superfície; eles escorrem como tinta pela tela, flutuam sobre a mesa, mais do que descansam nela; disputam com a mesa a prevalência de planos paralelos e perspectivas incompatíveis. Há aí uma luta com a pintura, que tem muito pouco a ver com o repouso.

"Antes, eu brigava muito com o trabalho. Estou ficando mais seguro agora. O plano está mudando, parece uma conquista", Ginane me disse há cerca de um ano. "Uma vez, o Paulo Pasta [de quem ele foi aluno] escreveu que olhar para o chão é um olhar inseguro. Estou começando a olhar para cima e estão aparecendo outros elementos ainda pouco reconhecíveis, lâmpadas e paredes onde antes havia xícaras e tapetes."

A mudança de perspectiva do plano, sua aparente mobilidade, resulta numa metamorfose das coisas: o olhar que antes fixava faixas de tapete nas bordas das mesas agora vê paredes; o que era xícara vai se transformando em lâmpada, no alto do quadro. Ou seja, o plano vai girando, se inclinando sem se inclinar, se inclinando como se fosse ganhar tridimensionalidade, ainda que permaneça plano, e nesse estranho movimento inerte (o plano que gira sem girar) os objetos também vão se transformando. O quadro incorpora mais de uma perspectiva, por vezes perspectivas incompatíveis no mesmo plano, de modo que os objetos se tornam outros, sem deixar de ser os mesmos. Na pintura de Ginane, essa coabitação de planos representa um arco, uma mudança na perspectiva do sujeito que olha (artista e espectador), ela remete a uma experiência no mundo.

A dificuldade de um fundo que é ao mesmo tempo infinito e superfície, representada pela evidência tátil da pincelada, das camadas de tinta sobrepostas, já tinha uma função assertiva e desestabilizadora nos trabalhos anteriores: as figuras em primeiro plano – cadeiras, cigarros, xícaras etc. –, perdidas no espaço, tinham sua perspectiva, sua autonomia tridimensional, contrariada pelo fundo sem profundidade, bidimensional e opaco, no qual acabavam se fundindo. Mesmo depois, quando surgem os tampos de mesa e os tapetes embaixo das mesas, ainda assim os dois planos se confundem, por um efeito telescópico, na mesma superfície. Há uma tensão e uma viscosidade entre as coisas e os planos, simultaneamente diversos e um só.

A dificuldade em todo caso é menos problema do que parte da solução. Ela impõe limites, indica o caminho ao pintor. Quando não tinha dinheiro para comprar tinta a óleo, Ginane passou a trabalhar com carvão e abriu mais uma via poderosa no seu trabalho. Na adolescência, ficou cinco anos sem ir à escola, por conta de uma depressão fóbica, paralisante. "Eu tinha medo do vento", ele diz. Foi a médicos, tentou macumba e terminou no consultório de um psicanalista, onde descobriu a pintura abstrata (tinha descoberto a figurativa com a reprodução de uma bailarina de Degas, na portaria do prédio onde morava com a mãe e o irmão, no Méier).

"Eu era doido para pintar figura humana", diz sobre um limite que até agora foi  essencial ao seu trabalho. Como no "Quarto de Dormir em Arles", suas pinturas são naturezas-mortas onde a ausência conspícua da figura humana, aludida apenas pelo rastro silencioso de cigarros e fósforos, acaba remetendo à presença do olhar, ao espectador.

"A literatura me toca mais do que a arte contemporânea. A arte de projeto se assemelha à propaganda. Para mim, a pintura acontece na pintura. Há uma mudez na pintura, da qual nenhuma palavra dá conta", arremata.

Em contraposição a uma arte cada vez mais retórica, Ginane escolheu nomear sua exposição com uma frase das mais irônicas ("Que Dia Feliz Hoje Ainda Vai Ser"), repetida por uma mulher imóvel, enterrada até o pescoço, em "Dias Felizes", de Beckett, um escritor cuja obra também tende para o silêncio.

A vida está toda nessa ausência, na luta entre os planos, no paradoxo da metamorfose inerte dos objetos e das perspectivas, que transfere o foco para o lugar e o olhar do espectador; nessa qualidade silenciosa, própria da grande pintura, de fazer confundir matéria e antimatéria e de pôr na tela, pela materialidade tátil da tinta, uma dimensão que é ao mesmo tempo visível e invisível e que se desloca sem sair do lugar, como nós diante dela.

Bernardo Carvalho

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