O Jardim Adormecido

“Nem adeus nem árvore.
Os desejos adormeceram atrás das janelas,
as histórias de amor e as traições
adormeceram atrás das janelas,
e os agentes de segurança também.
Rita dorme... dorme e desperta os seus sonhos.”
(trecho do poema O Jardim Adormecido, de Mahmud Darwich, tradução de Albano Martins, Porto, Campo das Letras, 2002)

Quando o sol se põe a cidade ganha outro tipo de iluminação e a luz elétrica torna-se a estrela da noite. Na parede do quarto é possível criar um teatro de sombras, um abajur acesso pode ser a melhor arma para a criança que tem medo de monstros ou até mesmo um cúmplice da menina que escreve em seu diário. Durante a noite a fantasia sai para dançar, os enamorados se amam, a dama da noite exala seu perfume, os boêmios se embriagam e podemos sonhar.

Rita sonha de noite, Marcela, Antônia, João, Jimson, Honório, eu e provavelmente você também. Dormimos e acordamos, para depois dormir, sonhar e despertar os sonhos. Porém, em uma cidade sem estrelas e onde muitos dormem na rua, pode-se dizer que despertar os sonhos é para poucos.

Um luminoso brilha no centro de São Paulo avisando: Os desejos adormeceram atrás das janelas. Mendigos, empresários, viciados, famintos, burgueses, andarilhos, madames, prostitutas, crianças, estrangeiros, estudantes, enfim, pessoas (que podem tanto estar na São Paulo de Regina Parra, como na Palestina de Mahmud Darwich) são lembradas que os desejos adormecerem atrás das janelas.

Da rua é possível observar janelas. Da janela se observa a rua e mais janelas. A noite vem para todos, os sonhos e os desejos também, mas nem todos despertam seus sonhos, assim como muitos não acordam de seus pesadelos.

Durante o dia muitos dormem estirados sobre caixas de papel em avenidas, ruas, viadutos e pontes. Para eles não há janelas, portas, tetos e/ou paredes, quem dirá sonhos. A vida parece ser um pesadelo constante, em que a única maneira de sonhar seria na companhia de um narcótico. O crack é o parceiro mais desejado na cidade de Regina Parra, assim como o ópio na cidade de Mahmud Darwich.

Fora da janela fumaças de pólvora, drogas, lixo, pneu e gasolina. Um véu negro abraça a cidade que dorme e acorda cada dia mais densa. O barulho é muito alto para um sono tranquilo. Buzinas, disparos, passos, falas, gritos, suspiros e muitos outros ruídos compõem a sinfonia caótica da cidade. Do lado de dentro da janela parece haver pouca vontade de despertar. As pessoas dormem e acordam, olham pela janela e não querem sair; voltam a adormecer.

Uma cidade sonolenta, uma vida adormecida, o tempo que passa e não desperta. Como fazer para que os desejos acordem? E depois, como trazê-los para fora das janelas? Perguntas sem respostas, mas que persistem tanto na poesia de Mahmud Darwich como no trabalho de Regina Parra. Calados seguimos dormindo, hora sonhando acordados e hora vivendo um pesadelo.