Geografia da proximidade

São vários os movimentos de mudança que, articulados, caracterizam o que se convencionou chamar de globalização ao final do século XX. Entre eles, destacam-se a complexa transnacionalização da produção de mercadorias, a constituição de mercados financeiros desregulados, a revolução da tecnologia de transmissão de dados e a generalização de grandes deslocamentos populacionais de longa distância. Ainda que seus impactos na vida contemporânea não possam ser plenamente entendidos se tomados isoladamente, cada um desses movimentos possui uma dinâmica que lhes é própria, podendo ser observados naquilo que segredam de um mundo em constante transformação. E se indústria, finanças e internet moldam o contemporâneo tanto quanto fluxos de gente, são esses últimos que, por tornarem mais visíveis os dramas humanos implicados nas alterações em curso, talvez melhor resumam o caráter entrópico dessas mudanças. São deslocamentos que estiveram e estão associados a causas tão diversas como os acidentados processos de independência de nações até então sob o jugo colonialista, os renovados conflitos étnicos, religiosos e políticos que se seguiram ao fim da Guerra Fria e, entre outros motivos de menor impacto, a busca contínua por postos de trabalho sempre insuficientes. São oscilações demográficas que impactam sobre os lugares de partida e de chegada de homens, mulheres e crianças, embora o que mais as caracterize seja o trânsito acidentado e difícil entre um e outro ponto. São muitos, afinal, os obstáculos ao movimento livre de corpos em um mundo supostamente fluido, tornando as travessias migratórias contemporâneas custosas e arriscadas para muitos daqueles que as empreendem. Custos e riscos que são tão maiores quanto mais pobres são os migrantes e quanto mais encarnem a ideia do diferente ou do outro aos olhos daqueles que são naturais dos lugares de sua pretendida chegada.

Regina Parra tem se debruçado sobre esses movimentos valendo-se, para isso, de meios diversos – vídeo, instalação e pintura –, sendo das poucas artistas brasileiras a criar formas e imagens críticas desse processo que permanece em curso aberto não se sabe por quanto tempo, tanto fora como no interior de seu país. No vídeo Sobre la marcha (2010-2011), se apropria de imagens noturnas de câmeras de vigilância localizadas perto de uma das fronteiras mais desafiadas e vigiadas do mundo (a que ata e divide os territórios dos Estados Unidos e do México), nas quais se veem filas de homens que vagam em direção a um lugar de desejo sem qualquer certeza de que haverá chegada. Como legendas das cenas borradas que exibe, usa trechos de um texto de Maurice Blanchot sobre alteridade e a condição de ser estrangeiro. Sobre o que é permanecer em trânsito e em uma situação de irrevogável incerteza sobre o que vem depois. Sobre o sentido da busca e do encontro de algo que, embora de contornos indefinidos, é logo transformado em objetivo claro pela vontade de fuga de um lugar incômodo de vida. De um lugar em que a falta é sentida.

Já na videoinstalação As pérolas, como te escrevi (2011), Regina Parra pede para que migrantes de países diversos que entraram e que vivem clandestinamente no Brasil – vindos da Argentina, Bolívia, Colômbia, Congo, Guiné e Peru – leiam trechos da carta Mundus Novus, escrita por Américo Vespúcio quando de sua viagem ao que seria o Sul das Américas, entre 1501 e 1502. Na carta, o navegador e explorador italiano relata sua impressões sobre as terras que visitava, afirmando que “se no mundo existe algum paraíso terrestre, sem dúvida não deve estar muito longe destes lugares”. No trabalho da artista, todos leem partes da otimista carta em tradução feita do original italiano para o português, revelando seu limitado domínio da língua do país que escolheram viver, seu desconforto em utilizar instrumento tão básico para lá se estabelecer. As imagens, além disso, são todas tomadas por Regina Parra em lugares desertos, de modo a não se poder estabelecer ao certo em que territórios esses homens e mulheres firmam seus pés naqueles instantes. Como se, apesar de serem todos migrantes que já chegaram aos lugares físicos que almejavam, continuassem seus caminhos rumo a algo que desconhecem. Entre silêncios e falas com variados sotaques, a artista escreve, no vídeo, uma outra carta sobre esse mundo novo que, vários séculos depois de ser inventado, ainda esboça partições de espaços.

Migrações são processos que envolvem perdas e ganhos, tanto físicos como simbólicos. Geram mudanças das coordenadas que se usa para se orientar no mundo e fazem questionar a ideia de pertencimento que cada um que empreende tal movimento possa possuir. Migrações perturbam, em particular, o que se pensava estar estabelecido desde e para sempre no campo do sensível. Tornam evidente que é a relação com o outro que define a identificação com coisas e ideias que alguém julga serem suas, assim como, analogamente, um centro somente existe se há também um espaço periférico. Definições de sentimentos de pertença e de localização que são, todavia, sempre parciais e transitórios, sujeitos a sucessivas refutações e reinvenções.

No vídeo 7.536 passos (2012) Regina Parra registra o percurso que faz, andando e munida somente de um rádio portátil ligado, do que é considerada a região nuclear de São Paulo até algum lugar da região Leste e mais pobre da cidade. Nos poucos quilômetros que separam o ponto de partida e o de chegada estabelecidos pela artista, testemunham-se, em imagens que registram seu caminho desde perto, mudanças na paisagem paulistana. Mudanças derivadas não somente da visível diminuição de qualidade dos equipamentos urbanos, mas também do que vai escrito nos letreiros de muitas lojas – nos quais, com crescente frequência, lê-se espanhol em lugar do esperado português – e nos rostos dos habitantes e comerciantes – nos quais se reconhecem, mais e mais, traços característicos dos que têm origem na região andina. Também a língua das notícias e canções capturadas no rádio que Regina Parra carrega vai aos poucos se alterando, do português para o espanhol. Com o movimento de seu corpo desenhando o território, a artista desvela, aos poucos, a presença forte de uma comunidade boliviana em São Paulo, empenhada em sobreviver de seu trabalho e servida por emissoras piratas de rádio. Oferece imagens e sons constituintes da cidade que, de outro modo, quase não se podem ver ou escutar. Escava, em São Paulo, um lugar de alteridade definido tanto pela língua falada quanto por (baixa) remuneração de trabalho e, por vezes, pelo estatuto de residente ilegal, desafiando noções estabelecidas de distância e diferenças entre países vizinhos. Atravessa fronteiras dentro da cidade e inventa, em passos contados, uma geografia da proximidade.