"Há um autorretrato, essencial, em preto e branco, de Mario Cravo Neto, tirado no alpendre de seu estúdio na Bahia, no qual ele mal aparece, uma figura projetada em retro sobre uma parede comprida em recessão. No primeiro plano, à direita, um refletor iluminado, sua sombra uma tenda em forma piramidal, um preto infinito atrás. Fora esta imagem, impressa e com título, nada aparece, parecendo não ter ninguém.

De manhã o vemos saindo de seu estúdio, imagens rastejando de seus olhos como lágrimas. Vai para o alto da cidade portuária da Bahia, acima das águas, parado e quieto na cor do dia e na sua luz. Suspeita-lhe ouvindo o ruído dos motores de um avião, atrás das lentes escuras nas quais desaparece, mão estendida obstruindo os raios do sol. Do avião alguém enxerga a luz das águas refletidas nas vidraças do avião; cria-se uma ponte entre seres, unidos e conectados no intervir do ar. Nas ruas da cidade baixa festejam-se dias de celebração, apreendidos plenamente, de maneira única e verdadeira, no preto e branco essencial da instância.

Como pedestais integrados à escultura que apoiam, as imagens de Cravo Neto são oferendas de um profundo sentir, colocadas sobre altares consagrando coisas comuns; alegorias arquitetadas com os elementos de uma subjetiva equação, introduzidos sem preâmbulos nem prefácios. Amuletos agraciando o plinto da pele desnuda, mediadores entre o percebido e o mundo criativo, ocultam o olhar do modelo com barriga de um bacteriano, um osso, uma bacia, o olho de um ganso; com os dedos e com as mãos. São esferas no lugar de cabeças, corações feitos em pedra, cabelos como véus; a coluna da garganta e as aves da Bahia, acesas com o provir de seu sacrifício eminente. Punhos sobre rochas pulsam palavras sonoras; sulcos de pensamentos; a alma arada. Uma pedra lisa irrompe de sua orelha, incandescente como a concha de um Náutilos, na fugacidade de um silencia peculiar a um artista: sua mulher, Angela, seu modelo e sua musa.

Do mistério dessas fotos, figuras indefinidas, espíritos parentais e protetores aparecem das sombras do apenas-além. Bocas expelindo ovos, ventres prenhes, promessas de peitos plenos, a inocência do jovem e a vaidade daquele cuja juventude já se foi. Preses neste eterno-agora, sábios na ausência de artífice e astúcia, com a concentração falha de uma criança, olham para ele ou dele desviam os olhos, esquecendo a sua presença para outra coisa olhar. Feridos, às vezes, da maneira cambalhotada de crianças guerreiras, suas cabeças aninhadas na escuridão profunda de cuidadosas mãos.

Existe uma posição na dança Clássica, uma pose de aparentado anulamento, um tipo de saudação ou de reverência, como se a modéstia fosse uma virtude e não um convite a um mirar admirador. Os retratos recentes de Mario Cravo Neto do elenco principal e dos associados do Royal Danish Ballet foram comissionados pelo Frederiksborg Museum da Dinamarca, como um ensaio pictórico em louvor à dança. Estendendo o discurso tradicional e clássico da arte do retrato e da interpretação fotográfica da dança, as fotos de Cravo Neto revelam o caráter dos bailarinos, refletidos em espelhos e capturados em suspensão. Em trajes de trabalho e luminosa carne, apresentam, cada um à sua maneira, o prazer franco e narcisista do culto da perfeição física, da anatomia a serviço da disciplina atlética e sua derradeira perda. Em sua quietude Cravo Neto retribuiu silenciosamente a atenção e a confiança de seus modelos neste projeto.

Filho de um escultor, tornou-se escultor. Há trinta anos e tanto vem construindo e concebendo a fotografia como ritual. Uma fileira de tochas acesas na varredura de uma savana. Fogo e cinzas circunscrevem o centro de um terreno de talha queimada. Entretanto, o elo principal dentre os projetos citados, as instalações que se seguiram e as fotografias que o tonaram conhecido, foi a apresentação de um translúcido ninho feito com filamentos de fiberglass, catados por algum arquiteto desconhecido: uma ave da vizinhança de seu estúdio na cidade de salvador. Colocou o ninho como coração eviscerado de um santo eletrônico num relicário de lucite. Como fundo, um encerado de caminhão, emoldurando, assim, a memória do momento. Dois anos mais tarde fotografou o que restava do furto de seu equipamento fotográfico, quem chamuscado maliciosamente, destruído pelo fogo, foi abandonado num canto perdido do Campo Santo. Esse cenário mudo de ferramentas de inúteis ele exibiu um Hasselblad, as Leicas, Nikons, lentes, corpos e filtros, no altar cego do desperdício. Como fundo, drapeado e colgado, um encerado de caminhão na escuridão. Relíquias de rituais performáticos da arte contemporânea, as fotografias resultantes há muito tornaram-se arte.

Filho da Bahia, Mario Cravo Neto celebra os povos da África no Brasil, onde é íntimo das divindades do Candomblé Iorubá, Exu, Ogum e Oxóssi, orixás que, seguindo com zelo seus passos, lhe dão sua proteção."