Qualidade do tempo

Praticamente um único objeto é o elemento comum em todas as obras apresentadas nessa exposição. Elemento altamente representativo mas não necessariamente imprescindível, muito menos identificado pelo seu valor estético. O que ele marca, aponta, registra, e informa, sem dúvida é necessário e vital. É em uma transposição de lugar e “função” (estética), sem deixar de lado sua representação, que os ponteiros são ofertados ao espectador como possibilidades de reverter, esgarçar, diminuir, desacelerar, quebrar e subverter àquele ao qual sempre serviu sem nunca reclamar. Os ponteiros, imbuídos da função estética que lhe foi atribuída pela artista, têm o caráter de apresentar novas ordens de tempo se fazendo e desaparecendo, se acumulando e sobrepondo para instantes depois se extinguirem. Não possuem métodos ou finalidades específicas. Não marcam o tempo, mas passagens. Medem aquilo que não se esperam deles, ou seja, estão no território da imprecisão e do non sense. Esse sistema pode ser ampliado ao associarmos essa ideia de (des)construção da obra de Lenora ao tempo-duração da fenomenologia. Esse tempo que se esfacela e se recria constantemente no horizonte expandido da obra de Lenora se conecta com o pensamento de Merleau-Ponty que afirma que o indivíduo que olha não determinaria o que está vendo, uma vez que seu olhar se deixa levar pela desestruturação de seu campo de percepção, que introduz o advento da corporeidade das coisas – a qual não mais é diferente de sua essência. É na possibilidade de moldar o tempo e tornar aparente a sua invisibilidade que mais uma vez ambos os pensamentos (do filósofo e da artista) se tocam. Se nos vídeos os ponteiros assumem completamente a sua visualidade, nas Nebulosas (2010/11), eles adotam uma espécie de camuflagem, uma dúvida sobre o seu estado de aparição e função. A delicadeza e a singeleza permanecem, mas deixam de ser marcadores de tempo para assumirem um estado de silêncio. É como se a obra de Lenora atingisse um grau máximo nesse processo de “quebra do tempo”. Nada mais resta (ao tempo) do que o seu silêncio. Contudo, Lenora não está falando de um fim, mas na possibilidade de refletirmos sobre as confluências e similitudes entre o (suposto) nada e uma temporalidade, digamos, cronológica. Não há, portanto, ambivalências mas fenômenos, aparições ou qualidades de tempo.

Tudo está em um constante movimento (transversal, alternado e não-linear) na obra de Lenora, mesmo quando ela opera com a escrita, como é o caso de Previsão de tempo (2008). Não lemos aquilo que esperávamos e continuamos em dúvida sobre o que se anuncia. A forma e o título criam uma associação nominativa e fenomenológica que gira entre a dúvida, a pretensão e o que está por vir. Estados e memórias que ainda não vivemos ou sentimos mas são anunciados como certezas. São títulos ambíguos porque podem ser entendidos como esvaziados de imagens ao mesmo tempo em que acionam o inverso disso. Os caminhos são múltiplos: não há um ponto de partida ou término. O espaço está demarcado mas ao mesmo tempo é fluxo. É no embate entre espectador/leitor e obra, que essa poesia visual se dedica à formação incessante de novas paisagens, leituras, associações, critérios, apontando para uma superfície vibrátil e virtual. Sua potência é ser um objeto em trânsito e portanto expor a imprecisão a qual o tempo está imerso. A obra parece dizer: não há a possibilidade de se antever o tempo, a não ser por meio de ficções.

Outro caso de aparição da palavra é no diálogo harmonioso entre Quanto tempo o tempo tem (2008) e Para todo o sempre (2010). Palavra como registro sonoro e visual. Recriação, através de jogos verbais (a primeira obra foi uma parceria entre a artista e sua mãe, e remete a um dado jocoso a respeito de uma memória infantil e lírica), de um estado de tempo transitório, cujo movimento não cessa e multiplica sua possibilidade na sua ação. A obra de Lenora não nos faz esquecer que o tempo é projeto constantemente realizado e realizável. Um processo de trocas, fusões e transformações, irrelevantes, talvez, para a experiência ordinária, mas que para a experiência artística constitui o modo da participação e do êxtase com o mundo. Há outro aspecto formal que conecta Previsão de tempo e Quanto tempo o tempo tem: o dado cênico. Se na primeira obra o cenário transmite uma ideia de mistério e imprecisão sobre o tempo, lugar e matéria daquela imagem (parecendo que qualquer coisa de óbvio que se possa julgar por sua aparência não interessava mais a artista), na segunda a instalação cria uma espécie de exercício reflexivo sobre a qualidade intimista que o tempo pode vir a possuir. E, em ambos os casos, temos a aparição de um repertório econômico de gestos e métodos que qualificam ainda mais a potência da palavra como objeto no seu diálogo com as artes visuais.