Lenora de Barros

Ao se acomodar numa das cadeiras da instalação Cadeiras Pussy, o espectador já experimentará a sensação de um percurso completo pela exposição de Lenora de Barros. Sua obra mais recente consiste num conjunto de nove cadeiras equipadas com espelhos retrovisores, fones de ouvido, enquanto o espaldar é posicionado de modo a permitir a visão da projeção de um vídeo. Pelo espelho, visualiza-se apenas a projeção, sem que se veja toda a tela. Embora imagens de obras anteriores da artista tenham servido de inspiração na criação do vídeo, a edição, montagem e som deram origem a um novo trabalho, que não deixa traços dos antigos que o motivaram. Entre as numerosas imagens, é possível identificar marcos da arte brasileira: um autorretrato de Reinaldo de Barros, importante representante do movimento concretista paulista e pai da artista, numa fotografia por ela apropriada (Em forma de família 1995). A rápida sequência de imagens de Cadeiras Pussy e o ato de literalmente olhar para trás pelo espelho retrovisor remetem à ideia de volta ao passado por meio de imagens fragmentadas pela memória. A concentração do espectador nos estímulos visuais e sonoros pode gerar uma sensação de desconexão com o espaço da exposição e de falta de presença para um plano mental – a velocidade e o encadeamento das imagens remetem ao pensamento –, provocando uma suspensão do tempo “real”. A experiência leva a uma reflexão sobre a passagem do tempo e as formas de perceber e retomar a história. Quando, por um momento, a pessoa para de procurar imagens pelo espelho retrovisor, ela se lembra de que está sentada de frente para a exposição; olhando para trás, ela vê as obras da artista, enquanto para a frente visualiza sua obra atual.

A trilha sonora da exposição é composta de samples musicais e palavras recitadas num ritmo semelhante ao do jogo de pingue-pongue: “Novo, de novo?, novo, de novo? nada de novo no ar, nada de novo no ar... nada a ver com nada a ver com nada a ver...”. Aos poucos, as palavras vão sendo reconhecidas; todas terão sido lidas durante o percurso da exposição, tanto em relação aos títulos quanto às próprias obras. A expressão “Nada de novo no ar” tem a ver com a questão presente em toda a exposição – não há nada de novo na produção artística contemporânea –, ao mesmo tempo que uma obra é denominada com três bolinhas de pingue-pongue, suspensas no ar sobre uma placa de vidro na qual está inscrita a frase: “Nada de novo no ar”. A obra Nada a ver é igualmente formada por bolinhas também contendo inscrições e suspensas numa placa de vidro. A expressão “nada a ver”, que em português significa não ter relação com alguma coisa ou coisa nenhuma, ganha na obra, no sentido literal, a noção de que não há nada para ser visto no trabalho senão bolinhas de pingue-pongue com as palavras inscritas: “Nada a ver”. Do mesmo modo que estas, as dezessete obras expostas, distribuídas nos dois pavimentos da galeria, foram elaboradas a partir de elementos do jogo de pingue-pongue. Caixas de plástico translúcido montadas em estruturas de metal, com tampa aberta ou fechada, estão cheias de bolinhas de pingue-pongue com inscrições como “Nada de novo”, “Dividir imagens”, “Multiplicar ideias” ou “Me pese”, “Me leve”. Os objetos Pussycat1 e Pussycat2 são formados por duas ou três raquetes dispostas paralelamente numa estrutura vertical apoiada na parede, numa situação de jogo impedida pela gravidade. A palavra “pussycat”, cuja pronúncia em inglês é “pussiquete”, é uma combinação do título da música pop que dá nome à exposição, “What’s New, Pussycat?”, com raquete. Entre outras obras, há também uma composta por uma mesa branca de pingue-pongue, raquetes e duas palavras feitas de acrílico alaranjado e colocadas na mesa, uma de cada lado: “Pingue” e “Poem”.

A obra visual contida no título e na formalização das mesmas expressões com sentido diferente se transforma, na última instalação, numa combinação de sons e ritmos, adquirindo novos significados. O elemento apropriado do pingue-pongue, nesse caso, é o som contínuo e repetitivo do jogo, usado como ritmo para as poesias (Pingue-Poem). A obra de Lenora faz referência direta à poesia concreta paulista das décadas de 1950 e 1960 e a seu jogo poético com a linguagem. Na exposição, ela lida com alguns dos diversos sentidos e formas inerentes à linguagem – visual, textual, sonoro –, ressaltando sempre o fato de não haver, nessa elaboração, nada novo. Mas, afinal, o que deveria haver? A obra trata com ironia as críticas reacionárias sobre a arte contemporânea, que têm necessidade de achar valor na novidade e originalidade, o que reduz a produção de hoje a uma sucessão de pastiches.

Em conjunto, a mostra denota a elaboração de um posicionamento crítico e irônico diante da questão do novo a ser compreendida na prática – pelo público. Ela constrói todas as obras a partir de fragmentos da(s) história(s) – a história da arte brasileira, sua história familiar, seus trabalhos anteriores – e das apropriações do mundo da arte, do jogo, da linguagem. Ao longo da exposição, o contato com diversas formas de apresentar as mesmas expressões nos faz reconhecer as inúmeras possibilidades de se entender um objeto ou um assunto, dependendo de seu contexto. Ao visitar a instalação, as palavras lidas na exposição, ou inclusive os trabalhos antigos da própria artista ressignificados, proporcionam uma nova experiência. Mesmo não partindo de nada novo, Lenora demonstra que as diversas formas de contextualizar e ressignificar ideias, imagens e palavras podem dar à sua obra um novo sentido.