O trabalho de Thiago Rocha Pitta vem estabelecendo um diálogo com a natureza, tema preferencial de suas pesquisas mais recentes. Esse diálogo se dá tanto no que diz respeito aos temas e materiais de que lança mão, quanto na relação direta que suas obras criam com os locais onde são instaladas. Embora pouco explorados na arte contemporânea brasileira, os fenômenos naturais e seus ciclos de acontecimento são a marca de alguns artistas recentes, como o dinamarquês Olafur Eliasson e a britânica Tacita Dean. No Brasil, pode-se pensar em Valeska Soares como uma referência. No caso de Thiago, esse interesse é marcado por certo romantismo, que faz referência ao pintor inglês novecentista William Turner, com suas pinturas atmosféricas e marinhas luminosas. Esse diálogo manifesta-se no interesse pela água e pelo fogo. A chuva é um dos temas das paisagens de Thiago, que trabalha com filme, fotografia, pintura, escultura e instalação.

O pintor inglês foi diretamente mencionado em Homenagem a William Turner (2002), filme em 16mm que o artista realizou numa praia na Ilha do Fundão, no Rio de Janeiro. Partindo do quadro Sepultura Marítima, o filme constitui-se em dois planos-seqüência que mostram um barco em chamas no mar. Menos do que uma referência direta à pintura, o trabalho investe na experiência de opor fogo e água diretamente. Em Abismo sob Abismo (2001), o artista instalou uma plataforma espelhada e suspensa sobre um precipício no bairro carioca de Santa Teresa. O espectador sobe na plataforma de 2,6m, confrontando seu reflexo no céu e na paisagem.

Em Fonte (2003), o trabalho realizado para o Museu de Arte da Pampulha, no contexto do Projeto Pampulha, Thiago criou uma escultura de água que se relaciona diretamente com a Lagoa da Pampulha. A obra é uma espécie de fonte invertida, construída em aço inoxidável e instalada em um platô do jardim próximo à Lagoa. A peça está ligada a uma bomba, que puxa a água da lagoa para, em seguida, devolver-lhe a água, criando no interior da fonte um redemoinho, que remete aos ciclos repetitivos e vitais. Fonte lida com questões de escala, opondo suas próprias dimensões ao volume de toda a água da Lagoa que usa para estabelecer seu fluxo contínuo. Sua relação com a natureza circundante é direta: seu formato côncavo espelha a paisagem e sempre reflete a luminosidade e o sol; sua cor, intensidade e volume oscilam de acordo com as mudanças na água da lagoa.