Paisagem de papel

Já faz algum tempo que a pintura de Tatiana Blass procura formas mais definidas e relações mais estáveis entre os seus elementos. Desde 2001, a artista aumentou a sua gama de cores. Passou a organizá-la de maneira mais regular. Os blocos de tinta foram fechados em massas bem delimitadas, organizadas geometricamente, com um vocabulário visual simplificado. As formas aparecem dissociadas umas das outras, atuam no quadro como objetos autônomos.

Elas não estabelecem solidariedade, nem intimidade com suas convivas. Não têm objetivos, tampouco ideais comuns. Em geral, suas cores também não se assemelham. São bem marcadas e não procuram relações tonais. Apresentam recortes inusitados e matizes pouco familiarizados. Quando as manchas se avizinham umas das outras, estabelecem contrastes notáveis. As formas parecem ver suas vizinhas como completas desconhecidas, elas se viram pela primeira vez nesta tela. Mas isso não é motivo para elas criarem conflitos.

A artista é delicada, tenta ajeitar estas diferenças. Aliás, é difícil incomodar estas pastas de tinta. Elas parecem ter saído direto da fábrica, têm cores artificiais, por vezes kitsch. Nas colagens, isso é ainda mais acentuado. As estampas se parecem com fórmica, capas de caderno e papel de parede. Em alguns trabalhos imitam um céu desanuviado e os veios da madeira. Tudo em um padrão contínuo, que saí quente da máquina. Por isso, temos a impressão que, talvez, elas aceitassem qualquer arrumação, mas isso parece pouco para Tatiana.

O trabalho não se dedica apenas à arrumação mansa das formas num espaço neutro. Também, não parece lhe interessar a lida estritamente objetiva com elas. Embora estes materiais sejam pouco artesanais e não guardem sinais de expressividade, eles passam longe da serialização minimalista e mesmo do planejamento do concretismo. Na contramão desta objetividade das formas, a artista parece procurar uma nova forma de se construir intimidade. Deste modo, seu gesto não muda nossa relação com a natureza­ isso, ao que parece, passa bem longe dela. Ela se vale de materiais prontos e acabados, e os desvia sua função convencional.

Tais superfícies ainda são regulares, repetitivas e lisas. Poderiam ser usados da maneira mais discreta possível. Mas a artista lhes atribuiu ambigüidade. Ao mesmo tempo, são planas e profundas. Apesar das formas de tinta, por vezes, se projetarem pra fora da tela, seus recortes sugerem um volume que nos leva para dentro. Colocados lado a lado, aqueles planos, aparentemente anódinos, costuram contornos com o espaço em branco e insinuam paisagens. Um pedaço de revestimento de móvel vagabundo parece uma mobília em um dos recortes.

A artista se vale da ambivalência da forma e da escala de seu trabalho para atribuir um sentido íntimo a formas tão frias. Aqui elas não são encaixadas em uma ordem predeterminada, parecem ganhar outro sentido. Como se diante da impossibilidade de se renovar a relação com a natureza, coubesse a estes trabalhos, ao menos atribuir novo sentido aos artefatos, para que eles não apareçam tão alheios a nós.