Advertência ao público

As atrações de hoje serão as mesmas amanhã. Não exatamente iguais, em razão de um processo de esgotamento, mas ainda assim as mesmas. Já não são como ontem e, talvez, nem mereçam ser chamadas de “atrações” dentro de alguns dias; questão de tempo. Porque o espetáculo jamais vai se consumar. Dirige-se ao fim, mas não avança. Antes, esgarça os contornos de sua linguagem até onde aguenta, muitas vezes sob lâmina quente, ou até estourar. Então, como significá-lo se não existe sentido estável a atribuir ou apreender? É na produção de resíduos, na aniquilação de encadeamentos, que a exibição prossegue. Holofotes acesos, palcos montados, cortinas abertas; os instrumentos musicais é que não. Esses, de sopro, repousam calados no chão, fechados à própria estrutura, do bocal à campânula, em circuitos abafados e autofágicos. Um pouco como acontece nesses teatros concebidos para a representação de animais, de figuras moribundas ou elementos inanimados – incluindo um para aviões, onde ninguém atua. Se há interpretação, trata-se de uma forma dada pelos atores que se resume a deixar-se tragar pela cena, tal qual silhueta errática, sem chance de fala nem de expressão.

Cão e homem, por exemplo, surgem pelos cantos, de corpo inteiro a princípio, de corpo inerte praticamente, não fosse o seu único sinal de “vida” também um índice de morte, gota a gota, sob, sobre ou atravessados por um calor que não emana a quantidade de energia que consome. Enquanto isso, o entorno despenca junto com os personagens, derrete e escorre diante de olhos crentes em passatempo, numa agonia só. Não que haja aspiração a tragédia. Porque tragédia constitui gênero dramático, e o que se apresenta agora não tem gênero, não tem categoria em definitivo, não tem estilo. O dourado que reluz não é ouro: é latão. Até o anúncio de magia por uma mestre de cerimônias em trajes cintilantes é a cerimônia em si, uma verborragia enfática, persuasiva, que engana olhos e ouvidos às raias do fastio – o que não deixa de ser divertido –, numa espécie de compacto verbal de números circenses, com acrobacia, malabarismo, contorcionismo e ilusionismo embutidos no texto e no tipo de locução. Tudo para dizer que “a ficção não virá da mente, será matéria bruta”.

Em parte significativa da produção que desenvolve desde 2006, Tatiana Blass materializa tal ficção. Mobiliza conhecimentos e recursos de manifestações do campo da cultura – do teatro, da música, da literatura, do circo – para uma investigação às voltas com formas fraturadas, interrompidas ou em dissolução, em diferentes meios (pintura, escultura, objeto, colagem, instalação, vídeo e texto). São trabalhos que parecem examinar condições-limite da experiência estética, por chaves ambivalentes, ao mesmo tempo de potência e extenuação, de expansão e encerramento, a caminho, quase sempre, da invisibilidade e do silêncio. Tanto que os acontecimentos costumam transcorrer vinculados a certo cansaço, ao estancamento de seres e à dissipação de forças anteriormente concentradas. É o que se percebe tanto nos objetos e ambientes descontínuos (respectivamente, Zona branca e Zona morta, ambos de 2007) como nos tridimensionais, cujo estado da matéria se encontra em transformação, do sólido ao informe (como nos animais de parafina da série Cão cego, iniciada em 2009, e de Quanto menos dorme, quanto menos sono há, de 2010). De todo modo, trata-se de pôr a existência em suspensão, de cindir o mundo em intervalos, ao dissipar a estrutura física de seus materiais.

A ideia de algo que está ali “pronto para novamente acabar” se repete no abafamento do poder sonoro de tuba, trombone e trompete (Metade da fala no chão, 2008) e na insinuação de eventos que não ocorrem ou, se ocorrem, vêm à tona atravancados – como se apenas insinuá-los fosse suficiente para substituir os eventos (no vídeo O engano é a sorte dos contentes, de 2007, e no tridimensional Globo da morte, de 2008). Também as pinturas da artista nesse período (das séries Teatro para cachorros, Teatro para animais, Teatro para aviões e Teatro da despedida) sugerem algo parecido, em palcos sem dimensões evidentes, de escala ambígua, acesos em parte por cores luminosas, ocupados por cães e aviões sem rumo, à iminência de um revés encetado por um cromatismo escuro ou pálido que se espalha nos fundos ou pelas beiradas. Na fatura desses trabalhos, chama a atenção o jogo de planos entre, de um lado, o perfil chapado de aeronaves, pessoas e animais e, de outro, o recesso sutil da superfície pictórica, ora pela sobreposição de cores com tinta liquefeita, rala e translúcida, ora com o simples acúmulo de camadas, não raro até o escorrido.

Essa superfície rasa que aí se obtém contribui para criar atmosferas nebulosas e difusas, numa figuração, ela mesma, de estranhamentos e, ao que tudo indica, sob a pressão de se esvair. Não é por acaso que as pinturas de 2009 para cá se intitulam Tempestade, falam de um Teatro da despedida, assim como outros trabalhos trazem no título referências à cegueira, a separações, a uma batida em retirada... O conjunto parece aludir a um estado de abandono e privação que, no fim das contas, é tão somente o cumprimento de um destino. O desaparecimento paulatino das figuras – por meio de formalizações que ultrapassam o controle absoluto da artista sobre os materiais de que lança mão – acaba por soar, mais do que nunca na obra de Tatiana Blass, um reiterado lembrete de finitude, de uma sobrevivência entregue à própria sorte e, por isso mesmo, violenta, desassistida, vigorosa e desoladora. Na sua pujança, o trabalho é capaz de sublinhar que paralisia, definhamento e descontinuidade aventam algo daquilo que ficou difícil ou impossível de realizar. Tornar essa dificuldade visível e tomá-la como matéria bruta, reportando-se a diferentes expressões artísticas, diz respeito, ainda, a considerações sobre o estado da arte enquanto produção de conhecimento e suas condições de inscrever-se na vida social. Do contrário, restaria a advertência de que o espetáculo, aqui, há de fracassar. Mas é preciso continuar, para além das possibilidades.