A partir de uma pesquisa sobre as relações entre opressão e insubordinação, a artista Regina Parra vem elaborando desde 2005 pinturas, vídeos, performances e instalações que examinam e cultuam a resistência. Nascida em São Paulo, a artista é bacharel em artes plásticas com orientação de Paulo Pasta em 2008 e é mestre em artes visuais com orientação de Lisette Lagnado em 2011, mas se formou inicialmente em teatro em 2000 com orientação de Antunes Filho. 

No campo do teatro, trabalharia como assistente de direção até 2003, e a experiência nesta área trouxe para sua produção desde o começo uma visão especial sobre os muitos vetores de sentido que podem cruzar simultaneamente composições entre corpos humanos, objetos e espaços. 

No ano de 2008, Parra fez parte de um grupo que acabou por ser conhecido como “2000e8”, formado por oito artistas paulistanos que participaram de uma curadoria de Paulo Pasta e que tinham em comum o desejo de investigar as potências da pintura na contemporaneidade. Desde então, sua pesquisa tem se endereçado cada vez mais à sinalização da herança colonial, encontrando, deslocando e torcendo vestígios ativos das injustiças do patriarcado, do colonialismo e do capitalismo. 

Na arqueologia, muitas vezes são os fragmentos de objetos (inacabados, danificados, descontinuados) que, por oferecerem mais perguntas, acabam nos levando a cercar mais de perto a cultura na qual se originaram. Os trabalhos de Regina, da mesma forma, ainda que essencialmente politizados, não nos atingem com dogmas totalizantes ou respostas pretensamente completas aos dilemas políticos do presente. São as lacunas presentes em seu trabalho que nos inspiram questionamentos importantes sobre nossa cultura e acima de tudo sobre nossa atividade diante das estruturas de poder, controle e opressão. 

Selecionada pelo primeiro edital aberto da Mostra 3M, Regina Parra apresenta o trabalho inédito “É preciso continuar”. Um grande luminoso em neon vermelho, instalado no centro do Largo da Batata, exibindo um trecho inspirado no romance “O inominável”, escrito pelo irlandês Samuel Beckett no contexto do pós-Segunda Grande Guerra em 1953. 

A expressão, refletida nos passantes, pode fazer-nos notar o quanto somos ao mesmo tempo frágeis e resistentes, vulneráveis e poderosos. A praça é cenário especialmente fértil para os trabalhos de Parra. A artista já há alguns anos vem trabalhando com questões relativas à negociação do real a partir do prisma de grupos não-hegemônicos (como são os imigrantes, os negros e as mulheres). A praça, sendo esse espaço público por definição, se torna ambiente propício para suas reflexões e reverberações. Em um momento em que as narrativas sobre o Brasil estarão sendo disputadas com intensidade máxima, neste cenário tradicional para as manifestações políticas em SP, o trabalho de Regina Parra poderá nos fazer observar nossos impulsos insurgentes e nossos limiares de resistência. 

O que nos faz tolerar a opressão? Onde está o ponto crítico da insurgência? Em que momento a insatisfação pode transformar a imobilidade da subserviência em criações desobedientes? De que maneira a fé no movimento insurgente poderá fazer eclodir uma transformação nas estruturas de poder? Como será possível construir esse novo sistema, esse novo presente? É preciso continuar. Não posso continuar. É preciso continuar. Então vou continuar.