A Espessura do Presente

No trabalho de Paulo Pasta, pintar significa velar. Aquilo que vemos parece ter uma intensidade maior, que a superfície dos quadros abranda e retarda. As suaves passagens tonais detêm o olhar em seu movimento de lenta diferenciação e envolvem tudo com sua sutileza e vagar. O curso do mundo adquire um novo compasso. Torna-se mais moroso, errante. As formas recusam o foco. As definições taxativas são adiadas.

Provisoriamente, temos tempo. Essas telas, de fato, afastam as identificações ligeiras, os reconhecimentos apressados. Como acontece com um objeto posto na água, precisamos olhar essas formas de outra maneira. Em lugar de nos deixarmos guiar apenas por seus contornos, devemos considerar seu contato com o meio e as alterações que essas relações produzem. Menos rígidas, elas adquirem um aspecto esponjoso e uma indefinição que as torna mais generosas com o ambiente que as circunda.

Nada que se mostre imediatamente interessa à pintura de Paulo Pasta. A aparência do mundo deve trazer consigo toda uma trama de relações – temporais, espaciais,  operativas. A lentidão desses quadros correspondem a uma realidade feita, que ainda resiste em se transformar em pura imagem, com sua presença ágil e ostensiva. De certo modo, esses trabalhos invertem a operação pop, embora sem desconsiderá-la. Afinal, as primeiras obras de Jasper Johns são uma de suas principais referências, e algo do aspecto atmosférico dessas telas deriva de sua pintura. Em lugar de apresentar o mundo como película, Paulo Pasta fixa uma membrana sobre as coisas, espessando-as e pondo-as ao abrigo de uma exposição exagerada.

Nesse momento, velar adquire um segundo significado: zelar, cuidar. Essas realidades meio remotas estão protegidas de um comércio excessivo com a vida de todos os dias, com  sua agitação e superficialidade. Para manter seu poder de diferenciação – sua promessa   de melhores tempos –, a arte paradoxalmente teve que abrir mão das formas marcadas e intensas que caracterizaram quase toda a produção moderna até a primeira metade do século. Na época da imagem, do simulacro, da reprodução, a forma moderna precisou incorporar certo travo, um pudor que se contraponha à efusão contemporânea; precisou opor o grave ao volátil.

No entanto esse mundo que reluta em aparecer por inteiro, que se nega a confinar com as demais coisas cotidianas não é o elogio conservador dos bons tempos que se foram. Por certo, a arte de Paulo Pasta vê com pouco entusiasmo o progresso tecnológico. E como poderia ser de outro modo se boa parte de sua força decorre de um fazer meticuloso, todo mediado por pequenas decisões, ético até a medula? Mas seu intuito está longe de ser o culto do passado e essas superfícies meio turvas de fato não são o eco frágil de realidades  grandiosas  e  longínquas.  Em  suas  telas  do  final  da  década  de  1980  talvez realmente houvesse um quê de nostalgia. Frontões, ânforas e colunas surgiam de ligeiras arranhaduras na última camada de tinta. E o gesto íntimo – aquelas despretensiosas arranhadelas – procurava reatar com um tempo histórico, na lembrança de uma era sem fraturas, em que indivíduos e comunidade se relacionavam harmonicamente.

O que se arma aqui é outra coisa – um tempo de espera. Diante desses trabalhos ficamos à espreita, na expectativa de que algo se mostre cabalmente. A qualquer momento esses fragmentos poderiam dar lugar a uma manifestação mais unitária, e desenhar um universo pleno e complexo. Mas nada disso ocorre. As partes que se destacam, que adquirem maior visibilidade, não conseguem ordenar a extensão inteira dos quadros. A todo instante são atraídas pelos fragmentos mais claros, que parecem se comunicar com uma região menos instável. Novamente a estrutura das telas se reverte e os tons mais baixos sobressaem, para logo em seguida se dispersarem, já que matizes tão leves não poderiam sustentar sozinhos a aparência dos quadros. Na pintura de Paulo Pasta, o tonalismo recorrentemente sugere um fundamento que ele próprio corrói. Um termo-comum - espécie de cor primeira que contivesse todos os seus tons – se insinua insistentemente  em meio ao jogo tonal. E novamente esperamos que algo de sólido e substancial sedimente e interrompa essas metamorfoses, essas passagens sem fim. Mas voltamos sempre àquelas tangentes, que prometem o que não podem cumprir.

Como se vê, continuamos a aguardar. No entanto, essa expectativa não tem o distanciamento de Esperando Godot ou de O deserto dos tártaros. Beckett e Dino Buzzati falam de quimeras, de esperas que procuram, num acontecimento futuro, uma saída para  a instabilidade ou a miséria do presente. Para Paulo Pasta, trata-se, ao contrário, de espreitar o próprio presente. Na sutil dinâmica dessas telas o momento atual se expande, adquire meandros, possibilidades. O curso do tempo parece suspenso e nos vemos entregues  a  um  presente  sem  remissão.  Mas  não  há  desespero  nisso.  Aqui  se  fala  de paciência. Sempre é possível encontrar combinações que nos restituam a variedade e a diferença. Mesmo que apenas tenhamos ocres e terras como ponto de partida.

Essa atenção ao presente, essa espera que não anseia por nenhum acontecimento particular também se revela no fazer que constrói esses quadros. Do mesmo modo que em seu lento ir e vir se afirma uma equivalência  de todas as regiões da tela – sem um   eixo formal que lhes dê um sentido forte -, parece haver aí uma atividade que não se orienta por um fim último, que ordene o conjunto dos esforços. Cada pincelada, cada justaposição tonal obedece apenas a uma espécie de equilíbrio interno, em que cada gesto reforce todos os outros movimentos, sem a preocupação de atingir uma meta final. Esse fazer paciente deve combinar uma enorme mestria e resultados discretos; uma habilidade ideal e formas quase singelas. Os gestos já não podem ser justificados por resultados vistosos e efetivos. Devem antes experimentar a resistência das coisas, incorporar à sua decisão o caráter dubitativo daquilo que ainda não ganhou sentido, e que por isso oscila entre ser tudo e nada. Para essa pintura, portanto, a história não é aquilo que nos livra do presente, acenando com promessas de uma vida melhor. Ela é a potencialização de nossas circunstâncias. O presente não é entrave. Na sua espessura – desde que se saiba vê-la – residem as nossas possibilidades, e não as nossas limitações. Para Paulo Pasta, a arte continua a ser um fazer diferenciado e positivo. Seu apego a Morandi e Volpi que o diga. No entanto, por ora cessam as utopias, as formas fortes. O presente ensina mais que as antecipações do futuro.

Os trabalhos mais recentes de Paulo Pasta – iniciados em fins de 1994 – têm uma nova respiração. Os contrastes de cor ganham mais força, os espaços se ampliam, as estruturas se ordenam com maior decisão. No entanto, uma atmosfera espessa e lenta continua a povoar essas regiões mais arejadas. O tempo criado por essas telas recusa ainda qualquer concessão ao mundo prático e às suas necessidades de presteza e prontidão. Mas algo novo se insinua nessas pinturas. Aquele presente elástico revela mais articuladamente sua constituição. O presente difuso e repleto de possibilidades das telas anteriores admite determinações um tanto delineadas, relações, medidas. As obras tornam-se menos rumorosas, e atos e coisas vêm à tona, mesmo sem perder em densidade. Nas cores encarnadas de Paulo Pasta, as formas oscilam: o presente está em jogo, e a função da arte – da sua arte – limita-se a aguçar a percepção das forças que o atualizarão. Resta saber o que sustentam suas colunas... Pouca coisa. Apenas um pedido  de sutil atenção.