Isso não tem graça nenhuma: notas sobre alguns trabalhos de Lenora

Difícil descrever minha sensação ao ver pela primeira vez Poema (1981), e isto porque a percepção visual não se dá no tempo, (como a escrita), ou não se dá apenas nele. Ela é uma experiência espaço-temporal em que tudo o que você é e sabe se transforma frente aquilo que você vê.

O nervosismo – ou a excitação – inicial se deu em mim pela percepção do contraste entre a beleza daqueles lábios e daquela boca e a frieza dos mecanismos da máquina de escrever; depois (depois?) a compreensão extrema da sensualidade, ou do caráter francamente sexual da língua penetrando o côncavo da máquina, excitando as letras.

Testemunha, cúmplice da gênese do poema – de qualquer poema – entendi que estava frente a uma obra de arte.                                                                            

A princípio, Homenagem a George Segal (1975), tem uma dimensão pueril, pois parece fruto apenas daquela que é a interpretação de qualquer um que vê pela primeira vez as esculturas/instalações do artista norte-americano: a alienação do indivíduo na contemporaneidade.

Concebido e pela primeira vez produzido ainda nos tempos do curso Colegial, Homenagem, à semelhança de Poema, parece uma série de fotogramas cujas imagens excedentes foram extirpadas, restando apenas aqueles “momentos decisivos” fundamentais para que o espectador possa configurar a narrativa.

O que parece, no entanto, retirar qualquer sentido de infantilismo de Homenagem ou, pelo menos, introduzir uma dimensão de perversidade ao que tudo indica alheia à poética do homenageado, é o fato de que ali, quem submerge sob a pasta, é a própria artista.

Se na primeira imagem vemos Lenora iniciando a ação tão prosaica de escovar os dentes, na última lá está a artista na mesma posição, mas com a mão e o rosto totalmente encobertos pelo dentifrício. Uma ação cotidiana que se transforma na paralisação absoluta. E ali a artista não representa a ação, ela a vive, ou a morre.

Em certa medida, mesmo ainda estudante, mesmo ainda buscando parâmetros, Lenora vai além de Segal: e vai além voltando para antes do ato de produção/reprodução do objeto/cena concebido: fica ali no corpo, na ação do corpo que se submete ao mundo (e a tudo o que isso significa) submergindo sob a materialidade ironicamente refrescante dele.

(Não seria interessante uma exposição, mesmo que pequena, mesmo que com apenas duas obras, que mostrasse algumas “homenagens” de artista para artista? Lenora, Nelson Leirner as fizeram. O que parece interessante é que as homenagens concebidas por eles vão para muito além da mera homenagem, do tributo do “discípulo” para o “mestre”, pois, de alguma maneira, existe como que uma superação dos paradigmas escolhidos. Em Homenagem a Fontana, de Leirner, o gesto do artista ítalo-argentino – que uma vez foi transgressor – é ironizado por Nelson que revela, e leva ao extremo, o caráter mecânico assumido pelos repetitivos “conceitos espaciais” perpetrados pelo próprio Fontana ao longo de sua carreira. Homenagem a George Segal, por sua vez, ao radicalizar o sentido apenas sinalizado pelo artista norte-americano, coloca a nu os limites da sua poética.)

Existe um dado em comum entre Poema e Homenagem a George Segal: em ambos Lenora usou o próprio corpo para efetivar os trabalhos.

Embora sempre lembrada (estigmatizada?) como herdeira de uma certa tradição concretista, é perfeitamente possível afirmar que Lenora emerge na cena artística dos anos 1970 constituindo sua poética a partir de um amálgama de paradigmas que, se entre eles apresentavam-se influxos daquele movimento, outros mais estavam ali presentes em simbiose produtiva: Décio Pignatari e a novela das seis; Bruce Nauman; John Lennon e Nelson Leirner; Geraldo de Barros e Godard; irmãos Campos e Abramovic e Ulay.

O próprio fato de nos dois trabalhos citados a artista usar seu corpo demonstra que estava atenta não apenas a procedimentos e poéticas conectadas às vertentes conceituais locais e internacionais do período, mas à produção do próprio pai (de fato as foto-performances de Geraldo de Barros informaram e informam a produção da filha. Ainda bem: uma maneira daqueles trabalhos não ficarem para sempre esquecidos, em prol da “pureza” da fotografia moderna no Brasil...). Esses influxos Lenora conseguiu transformar e reverter em canais apropriados para a constituição de sua poética.

Importante salientar: tanto Poema quanto Homenagem não são documentos de performance, em que a fotografia foi usada apenas como registro de uma ação. Pelo contrário: aquelas ações foram concebidas e realizadas para serem fotografadas e um dos índices que comprovam tal afirmação é a qualidade objetiva das imagens, evidenciando o cuidado com a produção das mesmas. Contra a pobreza técnica da fotografia como documento de performance (notável sobretudo nos anos 1960/1970), percebe-se nos trabalhos de Lenora um cuidado com o resultado final de seus trabalhos que, na verdade, são o encontro de várias linguagens.

Esta maneira de operar as diversas modalidades estéticas coloca a contribuição de Lenora em um terreno magmático em que poesia, artes peformativas e artes plásticas juntam-se em uma síntese única sob o signo da objetividade do índice fotográfico: quem duvida da veracidade do que ocorreu em Poema e em Homenagem se, apesar de tudo, a imagem resultante de uma foto continua tendo o aval de verdade?

“Entre” um grande número de modalidades já devidamente institucionalizadas (poesia, escultura, performance etc.), Lenora encarna desde o início uma prática intermídia que absolutamente não serve para catalogar seu trabalho, mas para defini-la enquanto artista.

Pouco depois do dia 11 de setembro de 2011, justamente num domingo, quando todos nós ainda estávamos ávidos pelos comentários sobre os ataques terroristas aos Estados Unidos, na quarta capa do antigo Mais! (suplemento do jornal paulistano Folha de S. Paulo) estava lá: Procuro-me.

A mesma imagem do rosto atônito de uma mulher aparecia repetidas vezes, como em um cartaz que busca fugitivos da justiça (terroristas, subversivos, ladrões, assassinos etc.). O que mudava eram os penteados da mulher. Em cada foto era um penteado diferente. Ela era igual e diferente; era ela e a outra.

E no momento em que todos procuravam os autores dos atentados, ela se procurava.

É lógico que a publicação daquele “foto-poema” ou “foto-performance” (importa a definição exata para o desvio? Importa alguma regra para a exceção?)  pouco tempo depois do atentado às Torres Gêmeas ressignifica o trabalho, mais uma demonstração do quanto o contexto em que se insere uma obra modifica seu significado e abrangência.  No entanto cabe aqui estabelecer algumas coordenadas para entender como a poética de Lenora trafega pelos mídias usando-os a seu favor.

Se em Poema e em Homenagem ela faz uso da sequência fotográfica para falar da gênese do poema, de qualquer poema, ou da letargia que pode se sobrepor a qualquer ação cotidiana, no caso de Procuro-me ela se apropria de um dispositivo, de um programinha de computador então à disposição das senhoras e senhoritas em alguns shopping centers da cidade, para tornar visível para todos (como em Homenagem, aliás) o mal estar do estar no mundo. Como mulher, como ser humano, como terrorista de si.

Foi no Rio de Janeiro (Paço Imperial? Paço Imperial.) em que vi pela primeira vez a série “Não quero nem ver”. Tive que ir para o Rio para rever Lenora e encontrei uma artista que é mulher – ela sempre fez uma obra de mulher. Se bem que em Poema aquela boca sedutora guardava uma língua-pênis que fecundava a máquina. E aí? – e que produz uma obra entre o tato e a visão. “Entre” o texto e a imagem encarnada em seu próprio rosto (A escrita é tato e ela não quer ver; não pode. É demasiado).

Uma obra de mulher que vê e percebe o mundo, portanto, “do lado de lá” (a mulher é o “outro” do homem?), mas sem proselitismo. E por não existir proselitismo é que Lenora rompe as barreiras entre os gêneros – sexuais e artísticos – para desenvolver trabalhos em que a fragilidade do humano é exercitada e explicitada no próprio ato de execução do trabalho, de cada um deles.

O sarcasmo, a ironia e o humor estão presentes nos trabalhos de Lenora: são elementos constitutivos de sua poética. Mas encobrindo-os ou, quem sabe, ali por trás, eles são insuflados por uma dimensão dramática, por um mordente que quase sempre transforma o sorriso inicial de quem os observa ou assiste (no caso dos vídeos), num esgar. Isso fica patente em Tempinhos (2005), em que a certeza “o ser humano administra o tempo” é subvertida, uma vez que o primeiro passa a ser administrado pela economia interna da leitura que ele próprio criou para submeter o tempo a seus caprichos. E isso não tem graça nenhuma.