Lenora de Barros tem uma relação muito próxima com a herança do projeto construtivo brasileiro e, particularmente, com o movimento concreto de São Paulo. Existe, é claro, o dado biográfico: é filha de Geraldo de Barros (1923-1998), um dos nomes mais importantes desse movimento, não somente pela sua obra como o campo de sua atuação preservar a utopia original das raízes russas e alemãs do construtivismo: a experiência artística tinha que se estender às aplicações úteis no cotidiano das pessoas. Foi pintor, desenhista, gravador, fotógrafo, designer gráfico e de produtos. A artista transformou essa herança familiar numa herança intelectual que se constitui numa autêntica afinidade eletiva. Mas por que toco nesse dado? Porque a obra de Lenora é uma clara demonstração que o reconhecimento da contribuição do construtivismo não implica na reprodução cega de seus dogmas. Lenora tem essa contribuição como um pano de fundo e uma reserva de energia intelectual que é transformada em sua obra em problemas estéticos do presente.

Quatro estados de quatro experiências são apresentadas em seqüência, nos quatro vídeos de Lenora de Barros: Tato do olho (tempo: 1’00), Ela não quer ver (tempo: 4’04), Já vi tudo (tempo: 9’50) e Há mulheres (tempo: 1’00). Tato do olho abre a série já ironizando a visão cartesiana do mundo sensível que comparava o olhar ao tato e chegava ao ponto de encontrar equivalências muito próximas entre os dois sentidos. Ponto de vista finamente criticado por Merleau-Ponty em o Olho e o Espírito. Dois elementos são constantes nos três vídeos, o uso do close-up e da palavra poeticamente estruturada como narrativa. Em Tato do olho a intervenção das palavras se dá exclusivamente nas legendas e mantêm-se o close no rosto da artista; a ação é muda, pontuada apenas pelo ruído de tapar os olhos com as próprias mãos. Poesia e imagem sempre estão presentes na obra de Lenora. Se a concisão da imagem e o uso da câmera fixa poderiam ser atribuídos a uma economia construtivista, dessa se afasta quando introduz uma interpretação dramática, de caráter ambíguo, ambivalente mesmo, que introduz forte tensão em todos os quatro trabalhos. Oscila de um verdadeiro drama para a comicidade mais completa em, por exemplo, Ela não quer ver e Já vi tudo. Culmina em Há mulheres onde o tom dramático baixa a um grau zero para uma leitura poética sobre a condição feminina. O caráter de gênero que atravessa toda a obra não descamba em nenhum momento num populismo feminista. Ao contrário, antes mesmo desse último momento do processo distribuído em quatro partes, Ela não quer ver e Ela já viu tudo já nos haviam apresentado dois pólos de um mesmo espírito feminino. Por essa inteligência  poética, condição humana e condição feminina se confundem numa simbiose produtiva na obra de Lenora de Barros.