Umas e outras

A exposição de Lenora de Barros agrega elementos visuais e performance sonora, trazendo uma série de 65 colunas publicadas no Jornal da Tarde, de 1993 a 1996. Filha de Geraldo de Barros, conviveu desde criança com os poetas concretos. Sua obra, entre linguagem, imagem e som, guarda relações também com a arte pop, com o grupo Fluxus, com o neoconcretismo e também com o viés conceitual, sem esquecermos o rock’n’roll. “O trabalho de Lenora”, afirma Augusto de Campos, “se expandiu da poesia visual escrita – ONDE SE VÊ (1983) – para o universo aberto das videoformas, [...] a palavra visualmente intensificada, trazida à flor da pele, verbocorpoidentificada, plasmada em biometáforas sensoriais – rosto, gesto, voz”. 1

São conhecidos seus trabalhos como Poema (1979), em que lambe, com a própria língua, as teclas de uma máquina de escrever ou ainda Procuro-me (2001), no qual, com diferentes perucas, olhos arregalados e a frase “procuro-me”, faz referência direta ao FBI, mas também a Duchamp e seu Wanted. Esse trabalho foi publicado no antigo suplemento Mais! da Folha de S. Paulo, logo  após o 11 de Setembro de 2001. Na obra de Lenora, poesia, artes  performáticas e artes plásticas “se juntam em uma síntese única sob o signo da  objetividade fotográfica”,2 assinala Tadeu Chiarelli 2. O esgarçamento das fronteiras entre as linguagens, iniciado com as vanguardas do século XX, radicaliza-se nos anos 60/70, quando Lenora começa seus trabalhos. Convive com os poetas concretos quando eles já não faziam poesia concreta no seu sentido radical e ortodoxo, e deles Lenora herda e incorpora certo domínio construtivo, de rigor e, sobretudo, o tratamento verbivocovisual. Caro a esses poetas, o conceito retirado de Finnegans Wake, de James Joyce, reitera uma relação entre palavra, imagem e som. Em Lenora, num contexto de artes visuais, ele se estende à imagem e não apenas à palavra.

“Poesia é coisa de nada”, seguida da frase invertida, diz a artista em uma das colunas “... umas”. Com requintada diagramação gráfica realizada por ela mesma, essas colunas publicadas no jornal indicam diferentes horizontes. Uma espécie de ateliê, de galeria, diz ela, pois vários dos seus trabalhos derivaram de coisas feitas para publicar, como, por exemplo, “De olho na mão” que apresenta diferentes fotos de pessoas publicamente conhecidas com as mãos nos olhos e a poesia: “ a mão que tapa / o tato /do olho/ não vê / que o olho / não vive / sem toque”. Coluna que dá origem a seu vídeo NãO Quero Nem Ver (2005), apresentado na Bienal do Mercosul no mesmo ano, quando começa de fato a acompanhar a edição, enfim a ter voz ativa na realização dos vídeos. As colunas versam também sobre outros temas, em que a poesia visual é forte, por exemplo, “Happy New Ear”, com os escritos “feliz ouvido novo feliz olho novo feliz boca nova feliz nariz novo”, até o final da coluna, retomando uma frase de John Cage. Ou “Amnésia 42 MP”, com um desenho de um disquete de computador e a escrita: “a memória / de minha / memória / apagou-se de si / para esquecer-se de mim”. E, ainda, o texto “Há mulheres”, depois transformado em vídeo com o mesmo nome, em que uma reflexão feminina é escrita e dita: “Há mulheres que pensam a partir da imagem da ideia. Há mulheres que pensam a partir do corpo da ideia. Há mulheres que pensam a partir da imagem de corpo. Há mulheres que pensam a partir do corpo da imagem. Há mulheres que pensam. Há mulheres que são”.

Com humor e domínio da história da arte, Lenora comenta trabalhos de diferentes artistas, sobretudo nas colunas dedicadas à crítica, às vezes sobre um só artista, outras, mesclando vários. São críticas poéticas. Artistas como Lygia Clark, Duchamp, John Cage, Yoko Ono, com colunas exclusivas ou não, são recorrentes, abordando vários outros, entre os quais Giacometti, Oldenbourg, Jasper Johns, Michael Heizer, Hélio Oiticica, Piero Manzoni, George Segal. Essas colunas deram origem ao livro Crítica de arte – Livro Primeiro, apresentado, mas ainda não editado, em versão bilíngue, cuja capa é Jogo de damas, trazendo os dizeres “Como dois números um divididos por si mesmos revivem singulares destinos des-espelhados.” De certa maneira, podemos ver em “Umas e outras” um desenvolvimento dessas colunas, como idas e voltas de questões, processo sempre presente na sua poética. Em um vídeo tríptico, da série Jogo de damas, realiza performances vocais de textos criados por ela na coluna “... umas”, em diálogo com a obra de outras artistas, entre elas Lygia Clark, Cindy Sherman e Yoko Ono. O som desse vídeo permanece aberto em diálogo com o do vídeo seguinte. Em outro vídeo díptico, Em si as mesmas, a artista joga damas consigo mesma, com tratamento sonoro específico, e som aberto que amplifica os ruídos emitidos pelas peças no tabuleiro e o próprio andar da artista em no chão sujo de areia do espaço em reforma. Os vídeos, realizados por David Pacheco e editados por Rodrigo Lima, e com tratamento sonoro de Rodrigo Marçal, realizam o des-espelhamento comentado por Lenora em seu livro de crítica.

Embora não se considere uma videomaker, ou trabalhe o vídeo como linguagem, ela tem sempre um pré-roteiro, uma “pequena narrativa”, participa da edição, construindo uma performance editada. Jogo de damas e Em si as mesmas são trabalhos operando o verbivocovisual, com atenção à materialidade dos signos em todos os seus ângulos, como os aspectos semânticos, a oralização e os aspectos visuais com especial atenção à estruturação gráfica.

“Umas e outras” cria uma situação em que a artista se desdobra em lenoras, jogando em múltiplas posições, transitando em várias “elas”. “Des-re-construção do eu e do ser”, 3 recorrendo uma vez mais a Augusto de Campos.

1 Augusto de Campos. Lenora, videoformas: de onde se vê a não quero nem ver. In: Relivro. Lenora de Barros. Rio de Janeiro: Automática / Oi Futuro, 2011.

2 Tadeu Chiarelli. Isso não tem graça nenhuma: notas sobre alguns trabalhos de Lenora. In: Relivro. Lenora de Barros. Op. cit.

3 Augusto de Campos. Op. Cit

Umas e Outras foi produzida originalmente para a Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio de Janeiro-RJ, em agosto/outubro de 2013, sob a curadoria de Glória Ferreira.