José Thomaz Brum

Construir com lavas

“...Le fil transparent et sombre de l´obsidienne, la nuit devenue couteau.”
(Roger Caillois, 1970)

As construções de José Damasceno, que supõem um saber sobre o espaço, uma imaginação de poeta e uma precisão de matemático, muitas vezes nos apresentam enigmas plásticos que estimulam nossas perplexidades. Sobre o Objeto de 8º grau nos faz percorrer um caminho em que refrações, reflexões e iluminações se encontram para produzir um topos reverberante.

O título, alusão direta a um texto de Macedonio Fernández, pretende expandir “la imagen de septimo grado” do escritor, aquela que ecoa – de reflexo em reflexo – produzindo “inscrições” mentais e físicas. Objetos de obsidiana achados ao acaso inauguram um espaço especular e especulativo. É como se o artista pegasse seu lápis de obsidiana e desenhasse seu topos de 8º grau, o seu lugar de regeneração.

Uma coleção de objetos insólitos (cogumelos, cápsula, ovóide, esfera, lápis, pote com matéria amorfa, stella octangula) e uma coleção de peças de um quebra-cabeça. Oito peças (cada uma com 3 partes ). O oito, símbolo da regeneração, número emblemático das águas batismais, signo do infinito.

A obra começa fora dela: com o surgimento aleatório das peças de obsidiana encontradas na rua. E continua em um 2º momento, quando o artista reúne insights, percepções e constrói a sua coleção de objetos.. O essencial para José Damasceno: o surgimento ou o aparecer de objetos é concomitante ao aparecer de ideias. Como afirma Schelling, o filósofo-guia da escola romântica: uma obra de arte é, ao mesmo tempo, um objeto e uma ideia.

Em termos estéticos, a obra joga com o preto e o branco, contraste severo ou sóbrio. Sendo o negro, a pedra negra, vulcânica; e o claro, o feltro cru que a acolhe. O artista achou, nas ruas de Guadalajara, em suas andanças, um quebra-cabeça tridimensional, uma unidade dispersa em outras. Reunindo objetos nessas coleções especulares ele apresenta a relação entre os objetos; algo tão importante e sólido quanto a suposta solidez dos objetos.

Há vários objetos e nenhum é exatamente, ou precisamente, o de 8º grau. Onde está o objeto de 8º grau? Ele paira sobre os objetos? Está na relação entre eles? Ou é todos os objetos ao mesmo tempo? Como sempre, nas obras do artista, trata-se de plasmar, de construir a manifestação de um raciocínio, de uma ideia cujo alcance completo ele ignora.

Se a coleção de objetos insólitos ou bizarros indica uma espécie de escavação artístico–arqueológica imaginária, as peças do quebra-cabeça designam o ascetismo e o rigor da matemática. Os objetos de obsidiana podem ser ditos “insólitos” ou “estranhos” porque a eles pode-se indagar: Por que estes e não outros? O que fazem aqui? O que geram aqui e para além do aqui? A sua circunstância é enigmática.

O artista se compraz em ser contemporâneo sem ceder à vulgata das mídias ou instrumentos de caricatura do contemporâneo. Uma forma oval de obsidiana (espelho) na parede constitui um comentário seu tanto à ideia de retrato quanto à de identidade (enigmática) do que está exposto.

Há nessa obra densa e concentrada uma espécie de síntese das preocupações de José Damasceno, das ideias que o acompanham: correspondência e relação, aleatoriedade e ordem, objetidade e idealidade, matéria e forma. A matéria vítrea frágil da obsidiana é envolvida/acolhida pelo feltro (elemento erótico). O pote de obsidiana carrega a pomada da matéria profunda em um material polido que reflete, que reverbera luz.

A obsidiana finalmente, escolhida como alma da exposição, “negra como o azeviche”, é – segundo Antenor Nascentes – “certa pedra negra e luzidia descoberta, segundo o testemunho de Plínio, na Etiópia por um homem chamado Obsídio”. Vidro vulcânico, fruto do “esfriamento de lavas viscosas”, a obsidiana serve para fazer espelhos, esses objetos que nos devolvem mais a sombra do que a imagem das coisas.

Os objetos de José Damasceno, enigmáticos em sua alusão a um 8º grau secreto e interrogativo, são – cada um à sua maneira – espelhos feitos desse negror profundo e vulcânico. O que refletem? O que fazem refletir? O que dão a pensar? Perguntas que o prazer de percorrê-los não deve escamotear.

José Thomaz Brum é doutor em Filosofia pela Universidade de Nice e Professor de Estética no Curso de Especialização em História da Arte da PUC-RIO.