Wagner Malta Tavares

Luz Tardia

porque na tensão da pergunta a alma é levada à graça da sua verdade, que a mando do conhecimento, a mando da pergunta, a mando da configuração, distendida entre a certeza do saber e a capacidade do conhecimento procura a realidade...
Hermann Broch

Sempre ouvi e li, e pensei justamente por ter ouvido e lido, que a única coisa que há é o presente, que o passado, por ser passado, houve; e o futuro, por estar por vir, não há. Mas algo acontece quando decido pensar: “PRESENTE”, comecei no passado já projetado o futuro enquanto o momento vai me escapando como líquido. Tão inapreensível quanto passado e futuro, o presente não se apreende nem como ideia que se sente, parece ser o território mais próximo do fim de cada um, já que é sempre no presente que se morre. É como uma bolha de ar numa mangueira esticada e levemente inclinada que não para nunca de seguir seu percurso até chegar ao fim da trilha e ser devolvida para o seu lugar de origem. E me faz pensar que o presente é movimento, é apenas um instante e, como tal, como detê-lo? Finitos e breves, ancorados no passado e com a isca lá na frente lançada, ficamos nesse lugar de onde se veio, se passa e se vai.

Pensando nessa presentificação das três instâncias do tempo, vejo uma espécie de luz tardia emanando das Paisagens que Felipe Cohen fez ao longo de 2016. Um momento diante delas, e alguma luz do passado se nos apresenta, uma sensação de familiaridade – sem falar da herança evidente de artistas da tradição recente brasileira como Volpi, Barsotti, Willys de Castro e Oiticica –, uma familiaridade de tempo vivido, uma sensação de algum modo comum a todos. Quanto dessa luz parece ser um eco que vem lá de trás e se projeta para o futuro? Uma luz cálida, a mesma que escapava de mim nos fins de tarde da minha infância e que nos últimos tempos tem voltado ao quintal de casa: aquela luz que quer permanecer e que bate e rebate entre as paredes, vidraças e folhas mais claras de árvores, a mesma que ricocheteia entre os cortes dos triângulos dessas paisagens, cria eixos e planos improváveis, se agarra aos nossos olhos e ao nosso espírito e, mesmo ausente, deixa marcas e saudades. A luz, toda entrecortada pelos módulos de madeira, dá mais à experiência sensível: fragmenta, esquadrinha e constrói, como parte da tradição de Paris do século XIX que ainda reverbera e provavelmente continuará reverberando por muito tempo.

Inacreditável fenômeno natural, mágico, prosaico, que a todos fascina, que de saída tem a velocidade que sempre terá, que não acelera nem desacelera, a luz, que atualiza o olhar, atualiza a obra e não tem tempo, está nessas paisagens, mas aqui com uma luminescência tardia – fenômeno impossível em termos da física e que a arte nos possibilita na obra de Felipe –, devolve o tempo do passado para o presente e flerta com alguma possível iluminação de um futuro que parece, no mínimo, e para ser otimista, melancólico.

O mesmo tempo deslocado está nos furinhos provocados pelos confetes que afundam no piso, que mantêm sua cor apesar de parecer terem erodido o chão com o peso de sua existência fugaz. Pode ser também uma prospectação da luz futura que um dia atingirá aquela camada da pedra e imprimirá o que ainda está por vir. Mais uma vez as instâncias do tempo perdem suas margens e apresentam-se simultaneamente. Mas é apenas um instante, como detê-lo?

O Ocidente – lugar do sol poente, lugar da morte para os povos antigos, dos monstros para os europeus pré-descobrimento do novo continente, ponto limite onde tudo termina e prenuncia outro começo, linha por onde passa o carro do sol e onde se desenvolveu grande parte da tradição da arte que interessa a Felipe Cohen – é o título da mostra. Esse lugar escatológico, final, extremo, é por excelência o lugar da solidão e do silêncio, o silêncio do disco de feltro que prolonga sua luz na superfície do vidro a refletir e completar-se em um possível alvorecer no outro lado do horizonte. Sintético como um poema, como sentia Elliot na sucessão das esferas, na opacidade de cada camada e na dificuldade de algum vislumbre da transparência de cada coisa. Fenômeno que ocorre no relevo Lago, em que a sintaxe clara e generosa tem o mistério das coisas simples, não deixa dúvidas nem pensamentos esquivos, mas guarda seus segredos nos materiais que conservam suas características e revelam em sua relação.

Gosto de exposições que ambicionam o olhar de um homem, na medida em que isso é possível, já que a natureza humana precisa de exemplos para ser algo próximo de individual. Inclusive por isso, creio, o artista trabalhe na atualização da tradição – já que há que se olhar para um lugar para se reconhecer, a escolha foi precisa naquilo que para ele seria exemplar.

Confuso e emocionante, o lusco-fusco do cair da tarde, aquela luz que desaparecia
(e se dissolvia na matéria escura da noite. Quando criança, brincando na rua.)