Rodrigo Naves

A alegria luminosa da matéria

I

Entre as belas imagens que o cristianismo nos legou – e que povoam fortemente o imaginário de muitos povos – algumas das mais comoventes se relacionam à metafísica da luz. O elogio da dimensão incorpórea da luz, identificada com a alma, acarretará, no entanto, uma série de preconceitos. Entre eles, acredito que o mais danoso diga respeito à depreciação do mundo material, em especial do corpo humano. E foi preciso que uma das maiores personalidades do cristianismo, Francisco de Assis, aderisse ao mundo de maneira radical para que esse contrassenso abrandasse um pouco.

Marsílio Ficino, um dos grandes pensadores florentinos do Renascimento, ligado ao neoplatonismo cristão, afirma que "a beleza do corpo não consiste na sombra da matéria, mas na claridade e na graça da forma, não na massa obscura, mas em uma espécie de harmonia luminosa". Paradoxalmente, esse raciocínio impulsionou algumas das maravilhosas realizações na mais material das artes: a pintura e seus diferentes meios.

Os mosaicos dourados bizantinos buscavam transformar, pelo brilho, a luz natural em luz divina, produzindo assim uma atmosfera mística que envolvia os fiéis numa névoa redentora. Em Ravena, cidade que tem alguns dos mais belos mosaicos da Itália, lê-se na capela arcebispal, construída no século V: “A luz ou nasceu aqui ou, aqui capturada, reina livre”. Pura poesia.

Onde encontrar, porém, vestígios desse sentimento cristão numa obra feita em boa parte de resina sintética, um material de forte ressonância pop, e em cores que Oswaldo Corrêa da Costa caracterizou como “cores Dulcora, carnavalescas, como se qualquer nostalgia das sutilezas cromáticas da pintura houvesse sido oficialmente declarada morta”?

Os vários títulos de cunho cristão de suas pinturas – “ Santo sepulcro”, “Lúcifer”, “Como Jonas”, “Ressurreição”, “Transfiguração”, “Lázaro”, “Pai, filho e espírito santo”, “São João Batista” e tantos outros – são uma indicação do interesse de Dudi pelo cristianismo, que o artista põe em prática em sua vida de maneira totalmente não institucional ou ritualística, procurando seguir à sua maneira alguns princípios básicos dos ensinamentos bíblicos.

Seria superficial querermos identificar um aspecto tão decisivo de um trabalho de arte – seu significado – apenas em títulos de quadros ou na biografia do artista. Estou convencido, porém, que, como as questões mencionadas anteriormente (a beleza incorpórea da luz e da alma, a obscuridade da matéria e a transubstanciação dos elementos) estão tão fortemente impregnadas em nossa cultura – que se pense, por exemplo, nas expressões “a luz dos seus olhos”, ‘uma pessoa iluminada”, “uma decisão transparente”, “o ódio turvou sua consciência”, “fulano pensa com clareza”, “beltrano é um cara-de-pau” e tantas outras – embora sem o caráter pomposo das designações tradicionais, que uma intuição artística poderosa com atenção ao mundo contemporâneos saberia convertê-las em arte, sem prejuízo tanto dos temas quanto da arte propriamente dita.

II

Nesta nova exposição na Galeria Millan, todos os motivos das pinturas têm a ver com a luz.  Em primeiro lugar, os artistas homenageados por Dudi – Sérgio Camargo e Alberto da Veiga Guignard – de forma quase oposta, trataram a luz com uma sutileza poucas vezes alcançada na arte brasileira. Camargo realizava seus jogos de luz e sombra pelo seccionamento e remontagem de cilindros, cubos e paralelepípedos que, como relevos ou esculturas, acolhiam a luz de modo a problematizar a razão quase cartesiana que conduzia suas construções.

Já Guignard, totalmente distante do construtivismo, fazia da luz doce de suas telas um elemento que se instilava nos sólidos naturais (montanhas, por exemplo) e que pacientemente corroía sua plenitude rochosa, fazendo-os escorrer como um olho d’água. E as “gemas”, sólidos facetados que lembram pedras preciosas lapidadas, são objetos diretamente ligados à luz, como joias, adereços, como indicadores da importância mundana ou religiosa de homens e mulheres. Rainhas e também santas são dignas dessas honrarias.

Para dar à luz a importância que vislumbro em seus trabalhos recentes, Dudi Maia Rosa precisou introduzir algumas mudanças no tratamento dado às resinas e nas dimensões dos trabalhos, consideravelmente menores na atual exposição. A maior translucidez deles irá permitir uma melhor percepção das mudanças por que a luz passará, enquanto as menores dimensões possibilitarão que o olhar dê conta de abarcar todo o campo luminoso que se formará a partir da ação da luz sobre as superfícies de resina.

III

Seria uma incompreensão absurda imaginar que o trabalho atual de Dudi visa a evangelizar as obras de Sérgio Camargo ou de Alberto da Veiga Guignard. A luz que brinca no interior dessas espessuras translúcidas de resina – um fenômeno óptico conhecido como refração –, ao contrário, procura restituir às superfícies artísticas um lirismo que tem mais a ver com o canto de um canário-da terra do que com pesado simbolismo cristão de uma pomba branca. No interior do “Guignard” levemente rosado, a luz se move com uma alegria que a menor translucidez do “Guignard” verde-phebo não permite, embora a maior luminosidade do verde-phebo dê ao quadro um encanto não menos tocante.

Já no “Sérgio Camargo” branco leitoso, a luz se equilibra num jogo de esconde-esconde em que dentro e fora trocam de posição sem cessar, com o que suas arestas adquirem uma angulosidade menos marcada, já que ela nunca se fixa na iluminação unilateral dos volumes. Em suma, o desafio de Dudi está em conquistar novos sentidos para obras de grande intensidade estética, sem em nenhum momento ironizar ou, farisaicamente, “citar” esses pontos altos de nossa produção artística.

Dudi quer, artisticamente, ou seja, por meio de elementos sensíveis restituir à luz, que também se manifesta como cor, uma alegria que as livre da pecha de inferioridade que as religiões e parte significativa da filosofia tradicionalmente lhes atribuiu e, em muitos casos, ainda atribui. Nessas pinturas a luz brinca entre reflexos e refrações, corporeamente, sem perder a leveza. Na língua inglesa “light” significa, não por acaso, “luz” e “leve”. E os trabalhos de Dudi nos certificam disso. Não por uma literatice prolixa e sim pelos meios mais sintéticos e verdadeiros possíveis.

IV

Há nas pinturas de Dudi Maia Rosa uma dimensão trágica que vai muito além do sentimento trágico do cristianismo, que provavelmente se mostre sobretudo na dilaceração experimentada por Jesus em razão de sua dupla natureza: ser homem e filho de Deus. Dudi quer desesperadamente experimentar um mundo que reluta em mostrar-se em sua dimensão material, já que há muito ele vem convertendo-se em imagem. Alguns dos melhores trabalhos contemporâneos, como a pintura de Andy Warhol, as fotos de Cindy Sherman e de Jeff Wall põem isso à mostra e parte de sua importância reside nessa explicitação.

Nas obras desta mostra, o artista luta encarniçadamente para transformar a luz – o fundamento mesmo da imagem – em uma experiência possível apenas pela mediação de elementos materiais, ainda que a translucidez da resina amenize sua opacidade. Por fim, o conjunto dos trabalhos praticamente apaga esse sentimento de tensão e dor. Talvez apenas momentaneamente o mundo voltou a ser o lugar de uma experiência. Fugaz talvez, como são também a alegria, a vida, a luz...