A resistência dos afetos

Essa exposição de fotos de Bob Wolfenson na Faap são duas? São três? Será a mesma com varias faces? Quantas são as nossas vidas na cidade e na família?

Entramos no salão e nos deparamos com a série das Antifachadas, que mostram o enleio dos edifícios na paisagem paulistana, amontoados, degradados e impassíveis. Depois, ingressamos numa sala dentro da sala, onde está a série Encadernação dourada, com fotos completamente distintas, na maioria mostrando gente, família, amigos, em instantâneos  marcados pela informalidade e muitas vezes pela alegria. Ao sairmos, passamos de volta pelas Antifachadas, que olhamos outra vez, mas com outros olhos, agora afetivamente despertos, talvez  mais humanizados; vamos buscar marcas deixadas por aquelas pessoas (tão vivas e ternas) naquela paisagem (aparentemente tão fria e opressora).

As Antifachadas de Wolfenson não mostram gente, só edifícios. Em geral, são os prédios desgastados que testemunham a disparada da especulação imobiliária em São Paulo, desde os anos 1960. Foram erguidos uns colados nos outros numa espécie de furor vertical que tapa a visão do horizonte e despeja uma sombra compacta sobre as ruas, como se fossem muros entrecruzados. Dentro deles, a classe média paulistana vive e trabalha espremida, porque o espaço(talvez até mais do que o tempo) é dinheiro.

As paredes da sala de exposições estão forradas com grandes reproduções das mesmas fachadas que, do lado de fora, diariamente se enfileram à nossa  volta.O efeito sobre o espectador é intrigante: é dentro de um espaço fechado que ele finalmente consegue “enxergar” a paisagem urbana. Nesta periferia do capitalismo global, a verdadeira cidade não é o meio ambiente construído, e sim aquilo que, nele, implicitamente foi destruído, devorado. É uma cidade invisível, impossível de fotografar.

Anhembi-Morumbi , Copan, São Vito, Conjunto nacional, Hilton. Ei-los reunidos, uns mais e outros menos anônimos. Estão todos lado ao lado formando um coro de tragédia grega. Parecem posar cheios de culpa, como se fossem os muitos clones de Saturno que olham para o fotógrafo pensando: “será que ele s sabem que devoramos nossos filhos ?”

Esses edifícios recém-expulsos da idade de Ouro: acabaram de adquirir uma autoconsciência, e não gostam nada do que estão sentindo.

No entanto, são belos. Os restos de sua imponência modernista denotam o esforço

Construtivo e financeiro que eles custaram. Mas as marcas visíveis dos maus tratados do tempo e da falta de conservação deixam claro que aquele ímpeto inicial, se não passou, foi embora: o  grande capital  mudou de bairro, ao que parece,e deixou toda uma paisagem de resíduos.

As Antifachadas inventariam esses restos, catalogam essas ruínas da prosperidade, onde, no entanto, a vida continua. Ma, apesar de não nos mostrarem as pessoas, formam uma espécie de comentário visual sobre seu modo de viver. É sugestivo que, em meio aos grafismos que compostos por janelas de edifícios residenciais, vejamos o “pombal” dos fundos de Carandiru. Vem à mente uma associação inquietante: de um lado, as celas da cadeia; de outro apartamentos e escritórios empilhados. Enquanto espectador considera essa comparação, dá de cara com o paredão de edifícios chamado “classe média”.

É uma boa hora para passarmos à sala da Encadernação Dourada, onde entramos como quem entra num apartamento. Aqui as fotos nos devolvem à escala humana. É a área da subjetividade, dos afetos e da memória. Nesse outro espaço de vida, o que vemos são as pessoas em família , no âmbito acolhedor da  intimidade e da amizade. Uma das poucas exceções  é  a foto que mostra o fosso interno de um edifício- mas também neste caso existe um contraste evidente com as fachadas lá de “fora”, sempre enfocadas desde um ponto  de vista abstrato; o fosse de dentro já tem uma marca pessoal, alegorizando   o vão interior do ser urbano.

É o apartamento que ficam as fotos de família e dos amigos: em casa, em viagens de férias, na praia. Aparece gente mais velha, gente jovem, gente pequena e mesa posta para o pessach , o banho de cachoeira, o quintal da casa de campo, a piscina na fazenda. São fotos ao mesmo tempo muito particulares(porque só pertencem a pessoas específicas) e muito comuns ( porque poderia pertencer a qualquer um).

Wolfenson multiplica a vida da gente que se oculta atas da degradação de São Paulo

Dispensam a parafernalia técnica da fotografia de publicidade ou de moda, e não tem a pretensão informativa e pública da fotografia jornalística.

Mas há também uma seqüência “em vermelho”, que parece ir mais fundo naquele fosso inicial, com flashes do desejo e da fantasia erótica no espaço privado. São rápidos e irônicos takes de projetores de cinema pornô em ação, uma alusão muito irônica ao carnaval e outras brincadeiras, entre elas uma engraçada coleção de pin-ups nuas dentro de tubos de ensaio. O reino da fantasia desviante e o reino da família e dos amigos parecem mal dispostos dentro do mesmo álbum, até que aparece uma foto para “amarra-los”é a imagem de um divã. A Encadernação Dourada, sem medo das recaídas kitsh do inconsciente, abriga tudo o que fala o coração.

Por essa imagem retornamos à cidade, vista pela janela acima do divã. Deixamos então o apartamento e reencontramos as Antifachadas, a caminho da saída. O olhar afetivo agora enxerga pequenos traços daquilo que a arquitetura nunca consegue projetar completamente: seus usos humanos. De repente, por trás da sinuosidade do Copan, os coloridos cômodos de cada  apartamento. Na cobertura de um prédio, sobressaem os lençóis vermelhos estendidos no varal. Algumas fachadas quase desaparecem por trás das roupas penduradas nas janelas, para secar.

A passagem pelo apartamento da memória e dos afetos transforma nossa percepção da paisagem abarrotada, e vemos a cidade viva resistindo em meio à selva imobiliária. Então são três exposições? Ou cada foto é uma exposição? Mas o que é mesmo que se expõe? AS fotos? A cidade? As pessoas fotografadas? O fotógrafo? O espectador? Tudo junto?