Rubens Fernandes Jr

ANTIFACHADA E ENCADERNAÇÃO DOURADA: CAMPOS DE SILÊNCIO NA LOUCURA DA IMAGINAÇÃO

Após quase dez anos longe do circuito de exibição das artes visuais, o fotógrafo Bob Wolfenson nos surpreende com dois ensaios – Antifachada e Encadernação dourada –, que, apresentados juntos, despertam a reflexão sobre nosso relacionamento com a cidade e inspiram uma nostálgica revisão, com certo distanciamento, dos nossos álbuns de fotografias esquecidos nos cantos da memória. Com esses trabalhos, BW demonstra ter a capacidade e o dever do artista, capaz de nos instigar, apresentando, com uma nova perspectiva, um olhar sobre São Paulo e sobre nossa vida, com evidências que nos provocam sentimentos tão desconfortáveis diante daquilo que é óbvio: a exposição de um retrato da nossa complexa interioridade, onde a identificação entre lembrança e emoção estética é evocada para recuperar uma experiência vivida.

Essa demonstração explícita de imprimir ao mundo uma misteriosa ordem interior, presente nas fotografias aqui selecionadas, denota que, apesar do caos resultante da falta de planejamento do espaço urbano e da irresistível improbabilidade de controle do cotidiano da vida, BW encontra verdadeiros extratos de pureza e harmonia no registro das formas, como se estivesse buscando (re)ordenar seus desejos, equilibrar seus sentidos e (re)encontrar sua história. Suas imagens irrompem da memória como se fossem flashes distantes da febre contemporânea do tempo real, para imporem-se como fragmentos visuais que se materializam como um inquieto manifesto da difícil existência humana.

O que é possível flagrar, nestes ensaios tão diferentes e, ao mesmo tempo, tão umbilicalmente conectados, é a presença de um território de confronto. De revelações, estranhamentos e confissões. O fotógrafo escolhe caminhar por um fio de navalha que nos desafia e nos comove. Tudo simultaneamente, buscando, nesse dentro e fora, a memória confinada de um tempo remoto. Campos de silêncio que permite ao observador se envolver em cada imagem como se fosse uma verdadeira aventura que implica, como no cinema, uma incrível duração experimental.

Antifachada e Encadernação dourada são experiências estéticas autorais, em que o espaço absoluto, relacionado num tempo idealizado, legitima a nostalgia que o homem tem dele mesmo. Nostalgia de sua história e de sua passagem no jardim das delícias efêmeras. A luz quase soturna que ilumina a cidade de São Paulo vai contrastar com as diferentes luzes dos snapshots do cotidiano; a geometria criativa que salta aos olhos, resultado da superposição dos diferentes estilos dos edifícios de São Paulo, se diferencia da composição imperfeita dos momentos de íntimas evidências luminosas. Enfim, BW acentua a dissonância entre o excessivamente técnico e a simplicidade de uma fotografia quase despretensiosa, criando uma possível estratégia que revela uma passagem tranquila, quase natural, da transição de um espaço público para um espaço de intimidade.

A monumentalidade e a repetição do espaço público em contraste com a privacidade; o distante e o próximo; o fora e o dentro; o grandioso e o pequeno; a exclusão e a inclusão; o anonimato e o imediatamente reconhecível. Esse confronto de ideias, essa justaposição de conceitos é a pedra de toque desses trabalhos, tão diferentes e tão semelhantes. São possibilidades já utilizadas por outros artistas, que, num determinado momento de sua trajetória, buscam as referências de uma memória esquecida e abandonada pelos atropelos e imposições diárias da vida. A cidade e a família como modelo e referência. Modelo pela proximidade, e referência como registro dos instantes captados para a eternidade. Imagens de um tempo feliz, que passa veloz, e cuja existência, na plenitude da imagem, de alguma forma a fotografia tenta assegurar.

Enfim, os ensaios evocam os lugares como indicadores do tempo que passa. Antifachada mostra que a paisagem urbana é inacessível para o andante, mecanizado e veloz, que não olha, não observa, não concretiza a experiência de relação com o espaço circundante e sua escala grandiosa. Encadernação dourada privilegia o relato visual intimista, apreendido na ambiguidade, na tentativa de organizar os movimentos sucessivos – o lazer, a liberdade, o deslocamento, os encontros, as lembranças – que denotam uma pluralidade sensível dos momentos prazerosos.

Na verdade, nestes trabalhos, BW percebe o espaço e trata-o visualmente como se estivesse numa posição de espectador diante do fantástico espetáculo da vida. Estabelece uma relação direta entre olhar a paisagem e registrar a cena, consciente de que essa atitude, de raridade momentânea, deixa entrever que a melancolia e a solidão são expressas como superação da individualidade. Aparentemente, não tem poesia nisso, mas, quando o espectador inicia o longo percurso da leitura visual na tentativa de compreender o conjunto das ideias, exibidas com singularidade e competência, é possível encontrar o lirismo neste entrelaçamento de percursos, que abrem caminhos para nos perdermos na loucura da imaginação.

ANTIFACHADA

Este ensaio trata do tempo presente, do aqui e agora, para conciliar as referências do passado e do presente, embaralhando-as num jogo de identidade e relação. O conjunto imagético mostra o complexo e dinâmico espaço da metrópole contemporânea. Apesar dos planos gerais e amplos, BW exige uma concentração intensificada, já que são os detalhes selecionados pelo espectador que trarão a satisfação visual e individual. Como se fosse possível fazer a invocação de uma gestalt longínqua de um complexo explosivo, de estranhas significações.

Às vezes, numa primeira impressão, as fotografias parecem um bloco monolítico, sem diferenças. Mas um olhar mais aprofundado vai nos mostrar que esse efeito aparente de um padrão é fascinante, pois evidencia o caos e as diferenças formais entre os edifícios. Caos e padrão relacionam-se dialeticamente para provocar um poderoso efeito visual quando estamos imersos na imagem, tentando ver com clareza um horizonte poético trágico na sua inutilidade.

A ideia de fotografar a cidade estava germinando há muito tempo. Mas foi preciso um longo almoço no Bar do Léo, e depois um passeio no centro velho, como um flâneur baudelairiano, numa tarde que irradiava uma luz especial, para BW perceber a beleza numa cidade que todos parecem achar feia. Uma beleza interessante, nova, capaz de detonar um processo criativo e aflorar uma ideia que já estava pulsando, mas que explodiu num instante de aguçada percepção.

A São Paulo de BW não tem horizonte, não tem céu, não tem chão. A lente comprime os planos, o recorte ressalta a superfície irregular da trama visualizada, e a imagem nutre-se da total ausência da perspectiva fotográfica. A miséria e a grandeza; a possibilidade e a impossibilidade; a grandiloquência e a atomicidade; o público e o íntimo. Tudo isso é percebido através das centenas de janelas presentes nas fotografias, nos transformando, no ápice da “janela indiscreta”, em voyeurs maravilhados neste vasto território de inequívoca abstração visual. Ao mesmo tempo, exibe-se a desumanidade de viver dessa maneira: amontoados uns sobre os outros, sem estabelecer elos nem articulações, permanecendo isolados.

BW radicalizou a possibilidade ficcional e transformou a cidade com uma luz intencionalmente opressiva, sufocante. A cidade parece explodir nesse espaço claustrofóbico. Também o tom das imagens foi selecionado após várias tentativas de alterar a cor da imagem no computador. A ideia inicial era mostrar a cidade como se o ar estivesse rarefeito, que desse a sensação de opressão. Uma imagem que fosse inóspita o suficiente para iconizar a crítica situação de viver em São Paulo.

Outra decisão importante para o desenvolvimento do trabalho foi a escolha do grande formato para as ampliações fotográficas, que tentam romper nossa relação com a fotografia, por meio das surpresas visualizadas nos detalhes que instigam nossa sensibilidade. Ao mesmo tempo que provocam o espanto, as fotografias têm uma escala que invade nossa consciência e trazem uma experiência que não nos permite criar um sentimento de comunhão nem de solidariedade. Esse estranhamento inicial altera por completo nossa percepção do espaço, deixando-nos atônitos quando tentamos aceitar nossa limitação perceptiva para compreensão da complexidade da forma urbana contemporânea.

Outro diferencial no trabalho de BW é que somos conduzidos a lugares inacessíveis, graças a sua ousadia de buscar ver a cidade por meio dos pontos inexplorados, de difícil acesso. Daí o impacto visual resultante dessa estratégia, que pressupõe que a tessitura do espaço urbano pode ser rompida pela escala cada vez mais surpreendente da cidade e pela constante abstração da compreensão dos processos urbanos e das relações sociais.

Ao observar atentamente essas fotografias, podemos verificar o quanto a cidade, construída aleatoriamente, pode nos surpreender. Nas inúmeras janelas dos edifícios, é possível verificar como os moradores se arranjam para resolver seus problemas domésticos. O varal de roupas, a bicicleta, as antenas parabólicas, os “puxadinhos”, o espaço verde, os espaços publicitários, os diferentes estilos, todos convivem livres do estigma de uma identidade, numa harmonia dissonante tipicamente paulistana.

Não existe um consenso unânime do que significa viver em São Paulo. Paradoxalmente, na cidade de BW não vemos os engarrafamentos infernais, não percebemos os seus diferentes cheiros, nem ouvimos seus ruídos proliferados no espaço. Somente um silêncio devastador na imagem da cidade cosmopolita. Apesar da visão crítica, as fotografias apontam para o princípio da racionalidade arquitetônica em permanente conflito com a irracionalidade da construção do espaço urbano. São Paulo parece transformar-se num espaço da alienação e da solidão claustrofóbica.

Fotografando a cidade desse ponto de vista, BW provoca-nos um êxtase ilimitado ao exibir sua percepção do desenho nascido dessa lógica perversa. Nosso corpo, quando vagueia pela imagem da cidade, não está mais envolvido pelas ruas e referências que o fazem circular e reconhecer o espaço. Os limites são impostos não só pela assustadora escala construtiva, mas também por meio de uma técnica precisa. BW cria um impecável ensaio, realista-minimalista, da metrópole contemporânea nos seus 450 anos. Nessa declaração apaixonada por São Paulo, ele comprova não só o poder da imagem, mas faz emergir uma estranha sensação de deslocamento que nos permite reencontrar a beleza desta cidade, que se esconde nos interstícios de uma trama paradoxalmente funcional. Nada é explícito, pois, em contraste com essa aridez quase sórdida, BW deixa aflorar a sutileza de seu olhar, que vê a cidade com uma atmosfera singular, de inacabamento, em permanente mutação.

Antifachada é um ensaio rompante que homenageia a cidade de São Paulo e, ao mesmo tempo, reconstrói a vontade de rever certas imagens que habitavam o imaginário do menino BW, que, no início dos anos 1960, no Bom Retiro, percebia a cidade como um amontoado de objetos estranhos: fios, transformadores, postes, edifícios altos vistos de baixo para cima, janelas ordenadas numa repetição sem fim. Ele acredita que sua percepção de São Paulo como uma cidade opressiva, dominadora e, ao mesmo tempo, linda e sedutora nasceu naquele momento, em que registrava tudo na imaginação sem limites. Antifachada é um trabalho profundamente pessoal, de uma aguçada percepção que capta a vida num fluxo diferenciado. Transformado agora nesse ensaio expressivo, instigante, não tem a pretensão de esquadrinhar a cidade do ponto de vista descritivo, muito menos ideologizar a cidade, mas exaltá-la em sua plenitude: plural e espetacularizada na fotografia.

ENCADERNAÇÃO DOURADA

A ideia deste ensaio era muito mais a de um álbum de fotografias da intimidade cotidiana, peça única que seria vista pelos amigos e pelos familiares. Ao publicá-lo, BW consegue trazer para outro circuito uma produção mais simples, sem o glamour das imagens encomendadas, sem a pretensão da exaltação momentânea. Encadernação dourada propõe imagens circunstanciais de uma vida, contemplando os diversos momentos de uma trajetória, retratando as pessoas que foram os faróis que iluminaram os diferentes caminhos desbravados pelo artista.

A edição das fotografias foi desenvolvida com a intenção de registrar uma história, por meio dos fragmentos de diferentes tempos, que indiciam as particularidades de um percurso, que na realidade parecem ser imagens que pertencem a um imaginário coletivo. Na sociedade contemporânea é comum a falta de vontade e a incapacidade da sociedade em querer lembrar. Por isso, essas imagens ganham uma dimensão estética e histórica, pois são memórias coletivas imaginadas, sonhadas, eventualmente vividas. Os momentos flagrados por BW representam, com diferentes intensidades, a dimensão experimental de uma fotografia que busca, com simplicidade, ultrapassar os limites para atingir a essência humana.

As fotografias iconizam o espetáculo do cotidiano. Nada dos exageros da representação, apenas registros do caráter efêmero dos papéis vividos, vistos pelo fotógrafo com um olhar dispersivo, mas profundamente consciente, pois a intenção é apreender o mundo visível diretamente dos acontecimentos. Os fragmentos são montados de forma a contar a história do artista que procurou ver o mundo com a lente que amplia os detalhes e dilata a percepção. BW não quer ocultar a passagem do tempo, quer contribuir para a construção de uma memória particular, que se generaliza com intensidade suficiente, capaz de despertar o prazer visual e a esperança de uma descoberta individual.

A unidade e a incrível coerência da edição estão asseguradas neste trabalho, inicialmente produzido sem a intenção de ser glorioso. Certa vez, o pintor Iberê Camargo afirmou que “as figuras que povoam minhas telas envolvem-se na tristeza dos crepúsculos dos dias de minha infância”, e podemos sentir esse clima nas fotografias de BW, nesta série produzida durante uma vida inteira, e que nos últimos oito anos vem ganhando uma articulação, uma reconfiguração sintática capaz de irradiar a emoção da experiência vivida. Essa leitura encadeada das suas memórias visuais dá uma intensidade à vida em seu esplendor radiante e luminoso. Por estar muito próximo de um horizonte poético reconhecível, desconcerta nosso olhar apressado sobre o Outro.

O que é possível detectar em Encadernação dourada é uma incrível transparência comunicativa. Nada de superações técnicas. O que BW buscou apreender foi, por meio de retratos produzidos no estúdio e de uma série de snapshots, um discurso visual que entende a vida como uma sucessão de fragmentos seletivos realizados em um dia qualquer, quando tudo parece emergir de um estado precário, que determina o clima e a incerteza da inexistência do absoluto. O traço dominante deste trabalho é justamente essa energia encontrada pelo fotógrafo, manifestada tanto pela composição espontânea como pela pulsação íntima e intuitiva.

BW demonstra que, de tempos em tempos, apesar do excesso de trabalho e dos compromissos assumidos, no interior do artista germina uma inquietação que faz explodir os seus múltiplos interesses – cinema, música, moda, quadrinhos, entre outros. Nos dois ensaios percebemos que habitam, simultaneamente, um fazer fotográfico, excessivamente técnico ou não, pouco importa, pois o que vale é a vida vibrando em cada imagem. Por isso mesmo podemos sentir que sua experiência especulativa com o mundo das imagens é capaz de produzir estas duas possibilidades: a de (ver)(a)(cidade) e a tranquila estranheza visual do sonho do inconsciente coletivo.